EUA | Política comercial de Trump é “versão descarada” do que Washington já fazia

A ex-representante comercial dos Estados Unidos Katherine Tai reconheceu esta sexta-feira que a política económica de Donald Trump é a “manifestação descarada” do que o país já fazia “há muito tempo”, apelando ao desenvolvimento de novas regras internacionais.

“As coisas que estamos a ver os Estados Unidos fazer hoje são, na minha opinião, uma manifestação muito, muito descarada das coisas que nós já vínhamos a fazer há muito tempo”, afirmou Katherine Tai.

A responsável pela política comercial durante a administração de Joe Biden (2021-2025) falava num debate sobre “O regresso das políticas de poder na economia global”, durante o encontro Mobilização Global Progressista, a decorrer em Barcelona.

Katherine Tai, que acumulou responsabilidades na política comercial dos Estados Unidos ao longo de cerca de 20 anos, afirmou que o modelo de comércio livre que vigorou nas últimas décadas foi construído com base “num conjunto de pressupostos elitistas”.

“À medida que integrámos o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA, na sigla em inglês) e a Organização Mundial do Comércio (OMC), implementámos um conjunto de políticas económicas essencialmente neoliberais. A nossa resposta para aqueles que foram prejudicados por essas políticas foi simplesmente: ‘azar'”, afirmou.

Katherine Tai referiu que foi com base nessas populações prejudicadas que Donald Trump conseguiu construir coligações vencedoras nas eleições de 2016 e 2021, vincando que foram essas mesmas regras que conduziram o mundo ao estado em que se encontra hoje.

“As regras que temos produziram a realidade em que nos encontramos agora. Isto não estava predestinado, mas era um dos vários resultados possíveis da agenda que levámos a cabo a nível interno e internacional”, indicou.

A ex-representante sugeriu ainda que a própria OMC foi criada sob um prisma de hegemonia do Ocidente, tal como vários acordos de comércio assinados por Washington.

“Hoje em dia, a OMC, tal como muitos dos nossos acordos de livre comércio, é uma instituição neoliberal e uma herança do nosso passado colonial. Só há três línguas oficiais na OMC, ao contrário do que acontece nas Nações Unidas: inglês, francês e espanhol”, referiu.

Katherine Tai defendeu, contudo, que a existência de regras internacionais de comércio é imperativa para que haja “equidade, igualdade e justiça”, mas sublinhou a urgência de desenvolver um novo sistema.

“Precisamos de novas regras. É o nosso papel desenvolver uma nova lógica para a nova ordem que gostaríamos que os nossos futuros governos implementassem”, concluiu.

Entre sexta-feira e sábado, vários líderes de esquerda mundiais reúnem-se em Barcelona, Espanha, para coordenar ações e partilhar experiências num momento de avanço da direita e da extrema-direita a nível global, no âmbito do encontro Mobilização Global Progressista.

Entre os nomes presentes estão o primeiro-ministro espanhol e atual presidente da Internacional Socialista, Pedro Sánchez, o presidente do Conselho Europeu e ex-primeiro ministro de Portugal, António Costa, assim como o líder do Partido Socialista português, José Luís Carneiro.