EXCLUSIVO | Quase um século depois, irmãos encontram-se nos Estados Unidos graças à persistência da família e às novas tecnologias

Por HENRIQUE MANO e ANGÉLICA PINTO | Newark, NJ

Em 1994, o título em caixa alta da primeira página do jornal LUSO-AMERICANO contava uma história de saudade, emigração e esperança: “Crise forçou o pai a regressar à Murtosa e hoje filho procura em Newark irmã que não conhece”. Era o início público de uma busca silenciosa que acompanharia durante décadas a vida do emigrante português Júlio José da Silva Rendeiro.

Em 1994, Júlio Rendeiro recorreu ao jornal LUSO-AMERICANO para tentar encontrar a irmã; o artigo foi caixa alta na primeira página do bissemanário

Mais de trinta anos depois dessa manchete (e mais de seis décadas após ter começado a busca) o sonho tornou-se finalmente realidade. Aos 87 anos, Júlio conheceu em New Jersey a meia-irmã que nunca tinha visto. O reencontro aconteceu no mesmo dia em que ela celebrava 90 anos de vida.

A longa história de separação terminou graças à persistência familiar e ao apoio das novas tecnologias, provando que o tempo pode afastar pessoas, mas não apaga os laços de sangue.

Uma busca que começou em 1961

Quando chegou aos Estados Unidos, em 1961, Júlio Rendeiro trazia consigo uma pergunta que o acompanharia ao longo da vida: quem era a meia-irmã que sabia existir algures na América?

Sabia apenas que, durante os anos da Grande Depressão, o pai tivera uma filha com uma mulher originária da então Checoslováquia (hoje Chéquia). Na família, porém, pouco ou nada se falava do assunto, reflexo de um tempo em que certas histórias eram guardadas em silêncio. “Sabia que tinha uma irmã aqui, mas da boca do meu pai nunca soube nada”, conta Júlio Rendeiro, em entrevista exclusiva ao jornal LUDSO-.

O pai de Júlio rendeiro, Manuel da Silva Rendeiro, emigrante da Murtosa

As pistas eram escassas. Pelos relatos familiares, a jovem poderia chamar-se Elena Silva e ter nascido por volta de 1936 ou 1937. O que Júlio desconhecia era que, entretanto, ela se casara e passara a usar o apelido Velicky, tornando a busca ainda mais difícil. Mesmo assim, a vontade de a encontrar nunca esmoreceu. Em determinado momento, chegou mesmo a recorrer ao jornal LUSO-AMERICANO para tentar descobrir mais pistas.

Uma fotografia e um silêncio de outros tempos

Na casa da família, existia um detalhe que alimentava a curiosidade: uma fotografia antiga de uma menina. “Havia em nossa casa uma fotografia de uma mocita pequenita e as minhas irmãs perguntavam à minha mãe quem era aquela pessoa”, conta Júlio. “A minha mãe respondia com subterfúgios, apesar de ter lidado sempre bem com a situação”.

Era o retrato de uma época em que a autoridade paterna raramente era questionada.

“O meu pai era um homem destemido, um homem de trabalho e não consentia que se lhe fizessem certas perguntas. Eram outros tempos… Já a minha mãe era mais acessível e dócil, à moda de antigamente”, recorda.

A família Rendeiro era numerosa. O pai e a mãe emigraram para os Estados Unidos após a eleição do Presidente John F. Kennedy, trazendo quatro filhas; Júlio chegou cerca de 18 meses depois. No total, eram oito rebentos.

Mais tarde, em 1967, os pais regressariam a Portugal. Manuel da Silva Rendeiro faleceu em 1975 e, anos depois, Júlio decidiu trazer a mãe novamente para a América.

A neta que continuou a missão

A história poderia ter ficado apenas como uma busca inacabada, mas a nova geração decidiu retomá-la. A neta Amanda Ann Rendeiro Pires Lopes dedicou mais de uma década à investigação genealógica da família. Utilizando plataformas digitais e testes de DNA, começou a ligar pistas que pareciam impossíveis de juntar.

O que parecia impossível aconteceu: o primeiro encontro enter as duas famílias – mas desta feita sem a presença de Patricia Helen Silva Velicky

O momento decisivo aconteceu a 18 de agosto de 2025, quando Amanda revisitou mensagens antigas trocadas através da plataforma Ancestry. Entre elas, estava uma enviada em 2020 por Andrew Velicky, que mencionava que a sua avó se chamava Patricia Helen Silva e acreditava ter ascendência portuguesa. Amanda percebeu que aquela poderia ser a ligação que o avô procurava há mais de 60 anos.

Entrou novamente em contacto e explicou a história da família. Pouco depois, os testes de DNA confirmaram o que parecia improvável: Patricia Helen Silva Velicky era, afinal, a meia-irmã de Júlio Rendeiro.

O primeiro reencontro familiar

Poucos dias depois, a 24 de agosto de 2025, Amanda encontrou-se com Robert Velicky, filho de Patricia Helen, a sua esposa Kristen e os filhos Andrew, Alicia e Kayla. Foi o primeiro passo para uma reunião familiar aguardada há quase um século.

O encontro presencial entre as duas famílias teve lugar a 11 de outubro, no restaurante Spanish Tavern, em Mountainside, New Jersey. Mas ainda sem a figura central do enredo…

“Tivemos a oportunidade de conhecer três dos filhos de Patricia Helen Silva Velicky, vários netos e um bisneto”, conta Amanda ao LUSO-AMERICANO. “Foi um encontro profundamente emocionante, reunindo várias gerações após quase um século de separação”.

“Do lado da minha família estávamos seis e da parte dela mais de quinze”, recorda Júlio.

O momento mais aguardado

Para Patricia Helen, a notícia da existência de um meio-irmão também foi surpreendente. “Creio que foi um choque para a irmã do meu avô saber que tinha um irmão”, explica Amanda. “Quando os filhos lhe contaram, precisou de alguns meses para digerir a notícia antes de decidir que sim, queria conhecê-lo”.

E finalmente se conheceram: os meio-irmãos Júlio Rendeiro e Patrícia Helen Silva Velicky. No dia em que Patrícia completava 90 anos, este março último

O encontro tão aguardado acabou por acontecer a 15 de março último, durante a festa do 90.º aniversário de Patricia Helen, novamente no Spanish Tavern. “Lá apareceu, toda risonha e bem disposta”, conta Júlio. “Fiquei muito satisfeito por a conhecer e por saber que ela, apesar de ter mais três anos do que eu, tem mais mobilidade”.

Durante a conversa, Patricia quis saber mais sobre o pai que ambos partilhavam (e perguntou ao irmão se ele tinha sido um bom progenitor).

Hoje, já reformado há quase quarenta anos, Júlio Rendeiro olha para este reencontro como um dos momentos mais marcantes da sua vida. Casado durante 61 anos, ficou viúvo em março de 2023 e é agora o mais novo de uma família de oito irmãos, restando apenas uma irmã viva.

Apesar da idade, a vontade de recuperar o tempo perdido mantém-se.

“Há planos para se reencontrarem?”, perguntámos.

“Sim, sim, da minha parte sim”, responde Júlio.

“E da parte dela também”, acrescenta de imediato a neta Amanda.

No passado dia 29 de março, data do seu aniversário, Júlio recebeu um presente especial da recém-descoberta irmã: uma pulseira com uma dedicatória simples mas carregada de emoção – “para o meu irmão mais novo”.

Depois de quase noventa anos de separação, duas vidas voltaram finalmente a cruzar-se, lembrando que algumas histórias familiares podem esperar décadas… mas nunca deixam de ter um final feliz.