PALM COAST | A vida na Flórida do empresário português que deixou marca na linha de arranha-céus de Nova Iorque
Por HENRIQUE MANO | Palm Coast, FL
Natural da pequena aldeia de Valverde, na freguesia de Vidago, concelho de Chaves, em Trás-os-Montes, o empresário português Carmino Salgado construiu nos Estados Unidos uma carreira marcada pelo trabalho árduo, espírito empreendedor e orgulho nas suas raízes lusas. Hoje na casa dos 60 anos, divide o tempo entre Nova Iorque e a Flórida, desfrutando de uma vida ativa depois de décadas ligadas ao setor da construção e do betão pronto.

A ligação à América começou cedo. Salgado tinha apenas 10 anos quando chegou pela primeira vez ao bairro de Jamaica, na zona metropolitana de Nova Iorque. Mais tarde, regressou a Portugal para estudar, mas acabaria por voltar definitivamente aos EUA já com cerca de 20 anos, estabelecendo-se em Queens Village.
Tal como muitos emigrantes portugueses da sua geração, os primeiros passos profissionais foram na construção civil. “O meu primeiro trabalho foi na construção, como a maioria dos portugueses naquela altura”, conta Carmino Salgado, em entrevista ao jornal LUSO-AMERICANO. Durante cerca de um ano, desempenhou várias tarefas em obras, antes de mudar de empresa e assumir funções menos pesadas, como a marcação de lancis. Seguiram-se vários anos ao volante de camiões especializados – primeiro de combustível, depois de recolha de contentores e, mais tarde, de transporte de betão. Foi precisamente neste setor que viria a encontrar a oportunidade que mudaria a sua vida.
“Entrei no negócio do betão em 1996, com o apoio de uma pessoa que confiava muito em mim”, recorda. Alguns anos depois, identificou uma nova oportunidade e, juntamente com o sócio George Reis, fundou a empresa NYCON Supply Corp, conhecida como NYCON Ready Mix, com sede em Long Island Cit, a 1 de março de 2000.
Ao longo dos anos, a empresa tornou-se uma referência no setor da construção em Nova Iorque. Na altura de maior atividade, empregava cerca de 70 trabalhadores e operava uma frota de cerca de 40 camiões de betão pronto.
O logótipo da empresa incluía discretamente um símbolo inspirado na bandeira portuguesa – uma escolha deliberada. “Esse símbolo lembra-nos a nossa casa e permite que outros portugueses saibam que somos um deles”, explica Salgado. “Era uma forma de manter as nossas raízes e de continuar ligados à comunidade”.
O empresário sempre manteve uma forte ligação à diáspora portuguesa, sendo também membro vitalício do Mineola Portuguese Center e um dos fundadores do clube português de Queens Village.
A NYCON Supply Corp participou em diversos projetos de grande dimensão na “Big Apple”. Entre eles, contam-se trabalhos relacionados com a Second Avenue Subway, o World Trade Center e o Aeroporto LaGuardia, além de pontes e inúmeros edifícios.
O forte da empresa eram, no entanto, “os edifícios altos em Nova Iorque”, explica, apontando exemplos como o Trump SoHo Hotel, o Setai Hotel na Quinta Avenida e a Missão dos Estados Unidos junto das Nações Unidas.
A operação exigia uma logística extremamente rigorosa, uma vez que o betão tinha de ser entregue rapidamente para não perder qualidade. O tema chegou mesmo a ser abordado num programa do History Channel dedicado à rapidez necessária no transporte e aplicação do material.
Após mais de década e meia de crescimento, a empresa foi vendida em junho de 2016 a uma multinacional do setor. Salgado permaneceu ainda alguns anos como consultor antes de se afastar da gestão diária. “Para ser sincero, quando estava a construir a empresa, sentia muitas responsabilidades. Era como ter um peso às costas”, recorda. “Quando surgiu a oportunidade de vender, isso acabou por tornar a minha vida mais fácil”.
O valor da venda não foi divulgado. “Isso fica entre mim e o meu sócio. Mas posso dizer que correu bem”, afirma.
Como se atinge, na sua perspetiva, o chamado “Sonho Americano”?
“O sonho americano começa quando se aprende a trabalhar nos Estados Unidos e se trabalha muito todos os dias. Depois as coisas boas começam a acontecer”, afirma. “Trabalhei muito e tive a sorte de encontrar pessoas que confiaram em mim e me ajudaram. É sempre passo a passo”.
Hoje mantém alguns negócios, incluindo um restaurante português chamado “Galo”, em New Hyde Park, além de um “car wash” e investimentos imobiliários.
Nos últimos anos, Salgado decidiu mudar-se parcialmente para a Flórida, procurando um clima mais ameno após décadas de trabalho intenso em Nova Iorque. “Trabalhávamos muitas vezes das cinco da manhã até às oito da noite, no inverno e no verão. Com o tempo cansei-me do frio”, explica.
Por volta de 2020, pouco depois da pandemia, comprou casa em Palm Coast, onde passa grande parte do tempo. Ainda assim, regressa frequentemente a Nova Iorque para visitar os filhos e os quatro netos – “o meu orgulho e alegria”.
A comunidade portuguesa também pesou na escolha do local. “É bom continuar perto das nossas raízes. Temos amigos aqui, um restaurante português e um clube onde vamos quase todos os fins de semana”, conta.
Apesar de ter reduzido o ritmo, Carmino Salgado continua atento aos negócios e orgulhoso do percurso que construiu. Aos jovens que pensam seguir o caminho do empreendedorismo, deixa um conselho simples:
“Não tenham medo. Não façam as coisas apenas pelo dinheiro. Façam-nas por gosto e trabalhem muito. As coisas boas acabam por acontecer”.
Apaixonado por golfe e adepto do Benfica “desde sempre”, Salgado encara agora uma nova fase da vida com tranquilidade – sem nunca esquecer as origens transmontanas que levaram o seu nome e o símbolo de Portugal a alguns dos maiores projetos de construção de Nova Iorque.






