EXCLUSIVO | Emigrante portuguesa nos Estados Unidos vota pela primeira vez na vida aos 87 anos
• Por HENRIQUE MANO | Mineola, NY
Há gestos que chegam tarde na vida, mas que, quando acontecem, carregam o peso de uma história inteira. Foi assim com a viúva Maria de Lourdes Ferreira de Almeida Pereira, emigrante portuguesa de 87 anos nos Estados Unidos da América, que votou esta semana pela primeira vez, e por correspondência – e fê-lo com um significado profundamente simbólico: votou no próprio filho, o mais novo de uma prole de quatro, hoje Presidente da Câmara na vila de Mineola, no estado de Nova Iorque.

Foto: CORTESIA PAULO PEREIRA | Maria Pereira a preencher o seu voto por correspondência: exerceu o ato eleitoral pela primeira vez
Natural de Veiros, no concelho de Estarreja, distrito de Aveiro, Maria Pereira nasceu em 1939, numa época em que votar não fazia parte da vida da maioria dos portugueses. Nem em Portugal exerceu esse direito. A vida levou-a por outros caminhos – de trabalho, família e sacrifício.
Em 1977, com o marido Avelino Henriques Pereira já na América, atravessou o Atlântico com os quatro filhos (Paulo, Joe, Lionel e Raul) em busca de uma vida melhor. A chegada à América ficou gravada na memória: o desembarque no aeroporto JFK e a viagem imediata até Mineola, onde o marido já os aguardava.
Décadas depois, e já naturalizada cidadã americana há mais de vinte anos, Maria Pereira protagoniza um momento que é, ao mesmo tempo, íntimo e histórico. “A primeira vez que votei foi pelo meu filho, o que me deixa muito feliz e emocionada”, confessou ao jornal LUSO-AMERICANO, momentos depois de ter acompanhado o filho até uma das urnas de voto instaladas no edifício camarário. E acrescenta, com simplicidade desarmante: “Em Portugal também nunca votei”.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Maria Pereira fez questão de estar ao lado do filho, o “mayor” Paulo Pereira, quando este votou presencialmente na passada quarta-feira na sede camarária local
O filho em causa é Paulo Pereira, actual “mayor” de Mineola, um caso singular: é o único autarca no estado de Nova Iorque nascido em Portugal. Candidato sem oposição pela lista do New Line Party, representa não só a sua comunidade local, mas também o percurso de milhares de emigrantes.
Para Maria Pereira, ver o filho na política é motivo de orgulho: “Dá-me uma grande satisfação ele ser quem é e, através do cargo que ocupa, vê-lo trabalhar pelos moradores desta vila e deixar bem vistos os nossos, a comunidade portuguesa”.
Mas este voto não é apenas um gesto de mãe, é também o culminar de uma vida de resiliência. O próprio Paulo Pereira sublinha, em declarações ao nosso jornal, o simbolismo do momento: “Para mim, significa a concretização do sonho americano. Imaginar a minha mãe, com 87 anos, que veio para os Estados Unidos em 1977 com o ensino básico de Portugal, não só ver, mas também poder votar pelo filho mais novo numa eleição nos Estados Unidos da América”.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Maria Pereira no gabinete do filho, Paulo Pereira (esq.), no dia das eleições – vendo-se ainda na imagem op filho Lionel Pereira
Recorda ainda o percurso familiar: “Há quatro anos, quando fui eleito pela primeira vez, o meu pai ainda era vivo e estavam radicados em Portugal, por isso não votaram. Depois do falecimento do meu pai, em 2023, a minha mãe regressou aos Estados Unidos e agora, recenseada e cidadã americana, pôde votar”.
As palavras do autarca revelam a dimensão emocional deste momento: “Nunca imaginei, como um miúdo de seis anos recém-chegado aos Estados Unidos, a viver num apartamento pequeno com os meus pais e irmãos, que um dia estaria nesta posição (e que a minha mãe faria parte desta vitória). Não só para mim, mas para a comunidade portuguesa e luso-americana em Mineola e, na verdade, para qualquer grupo étnico”.
E conclui: “Orgulha-me ver o produto de tanto sacrifício dos meus pais manifestar-se desta maneira”.
Naturalizado cidadão norte-americano em 1995, Paulo Pereira afirma nunca ter falhado um acto eleitoral desde então, defendendo a importância do voto numa sociedade democrática: “Muitas pessoas no mundo não têm essa oportunidade”.
A história de Maria de Lourdes é, afinal, a história de uma geração que trocou o conforto das raízes pela incerteza do futuro e que, décadas depois, vê florescer os frutos desse risco.
Entre a aldeia de Veiros e a vila de Mineola, passaram-se quase 50 anos. Pelo caminho ficaram saudades, perdas e conquistas. Mas naquele boletim de voto depositado aos 87 anos, estava mais do que uma escolha política: estava uma vida inteira de luta, dignidade e amor de mãe.
E, talvez, a prova de que nunca é tarde para fazer história.

