EXCLUSIVO | O advogado (e visionário) português que construiu uma ponte sólida com os Estados Unidos

Por HENRIQUE MANO | New York, NY

Num mundo jurídico cada vez mais global, João Marecos é um exemplo raro de alguém que conseguiu unir, com naturalidade, dois universos legais distintos: o europeu e o americano. Advogado desde 2016 em Portugal e inscrito na Ordem dos Advogados de Nova Iorque desde 2018, o seu percurso é uma história de mobilidade, visão internacional e profundo sentido cívico. Com um pé em Lisboa e outro nas grandes metrópoles do mundo, Marecos tem sabido transformar cada etapa da sua vida em novas oportunidades de intervenção pública – e inspiração.

A ligação de João Marecos aos Estados Unidos é tanto profissional como pessoal. Em 2018, tornou-se membro da Ordem dos Advogados de Nova Iorque, abrindo-lhe portas para uma carreira internacional que hoje o coloca no centro de desafios jurídicos globais.

O Direito surgiu cedo na vida de João Marecos, alimentado tanto por referências familiares como pelas leituras da adolescência. Escolheu esta área, diz, porque lhe permitia manter abertas várias portas: “O Direito trabalha a retórica, o raciocínio, a filosofia e a história. É uma formação que dá liberdade a um jovem que ainda procura o seu espaço”, afirma João Marecos, em entrevista escrita exclusiva ao jornal LUSO-AMERICANO.

Mas o que o distingue é a forma como nunca se deixou limitar pela definição clássica de “advogado”. A sua intervenção pública extravasa a profissão: participou no projecto “100 Oportunidades”, doutorou-se na área da desinformação – que o levou até à Organização Mundial da Saúde – e co-fundou “A Mensagem de Lisboa”, um dos mais inovadores projectos de jornalismo urbano do país.

Aspecto do website  do jornal “A Mensagem de Lisboa”, projeto do qual é co-fundador, e que pode ser considerado um dos mais inovadores projectos de jornalismo urbano do país

A ligação de João Marecos aos Estados Unidos é tanto profissional como pessoal. Em 2018, tornou-se membro da Ordem dos Advogados de Nova Iorque, abrindo-lhe portas para uma carreira internacional que hoje o coloca no centro de desafios jurídicos globais. Como “General Counsel” de startups internacionais, incluindo a actual empresa sueca Bitrefill, colabora diariamente com equipas dispersas pelo planeta.

Passou pela NYU, onde chegou a ser “valedictorian” em 2018, e pertence à Ordem de Advogados de Nova Iorque

“Este contacto constante com desafios jurídicos globais é próprio do mundo hiperconectado em que vivemos”, nota o advogado português. Entre sistemas legais tão distintos, destaca uma diferença essencial: “No modelo americano, os juízes criam Direito; no europeu, aplicam normas previamente codificadas. Um é pragmático e moldado pela experiência, o outro é racional e sistemático”.

A sua experiência em Nova Iorque não se limita aos tribunais ou às empresas. É também emocional: tem família em Newark, presença que marcou profundamente o seu tempo no país. “Estar mais próximo deles quando vivi aí proporcionou-me o abraço familiar de que qualquer pessoa deslocada sente falta. Tenho muitas saudades e espero vê-los em breve”.

Marecos tornou-se uma das vozes portuguesas mais atentas aos perigos da desinformação – tema sobre o qual investiga, comunica e alerta. Nas redes sociais, não as usa para promover o seu trabalho de advogado, mas sim para amplificar o debate público, combater narrativas falsas e defender o jornalismo de qualidade.

Nas redes sociais, não as usa para promover o seu trabalho de advogado, mas sim para amplificar o debate público, combater narrativas falsas e defender o jornalismo de qualidade

Ao olhar para a evolução tecnológica, vê uma profissão jurídica ainda cautelosa, mas em transformação: a inteligência artificial, diz, vai revolucionar desde a elaboração de documentos à democratização do acesso à linguagem jurídica. E destaca o papel de startups portuguesas como a Legau, a Lexstream e a Equall como pioneiras desse futuro.

Apesar de ser frequentemente convidado para comentar na imprensa e na televisão, João Marecos recusa a etiqueta de “figura pública”. Reconhece, no entanto, que a exposição tem custos – e que as redes sociais, com a sua volatilidade, podem ser impiedosas. Ainda assim, vê cada episódio como um aviso e um reforço da responsabilidade de quem participa na vida cívica.

E se não tivesse escolhido o Direito?“Continuaria a investigar e comunicar sobre desinformação, liberdade de expressão, democracia e jornalismo”.