EXCLUSIVO | Tenente Helena Oliveira termina carreira de excelência ao serviço do Essex County Sheriff’s Office

Por HENRIQUE MANO | Newark, NJ

Há despedidas que simbolizam muito mais do que o fim de uma carreira. São o reconhecimento de uma vida inteira dedicada ao serviço público, à comunidade e aos valores da integridade. Foi esse o momento vivido pela tenente Helena Oliveira, natural de Pardelhas, concelho da Murtosa, que colocou um ponto final numa carreira de cerca de três décadas ao serviço do Departamento do Xerife do Condado de Essex, em Newark, NJ.

Pela última vez, Helena Oliveira entrou na sede do Essex County Sheriff’s Office com escolta policial. Ao seu lado, seguiam as duas pessoas mais importantes da sua vida: a mãe e a filha. No interior do edifício, entregou a arma de fogo, o colete à prova de bala, o bastão policial e o restante equipamento que a acompanhou durante tantos anos de serviço.

No gabinete do xerife, recebeu um diploma de honra pelo seu percurso exemplar. À saída, dezenas de colegas aguardavam-na para um derradeiro adeus. Houve abraços, sorrisos emocionados e lágrimas que traduziram o respeito conquistado ao longo de uma vida dedicada à instituição.

O próprio xerife Amir Jones não escondeu a gratidão, dizendo ao Jornal LUSO-AMERICANO: “Quero simplesmente dizer obrigado. Era isso que queríamos fazer hoje. Queríamos proporcionar-lhe uma despedida digna, com a família presente. Nós também fazemos parte da família dela. A Helena está connosco desde os 19 anos. Quando estava a candidatar-me para ser agente do xerife, foi ela quem fez a minha investigação de antecedentes, entrevistou-me e ajudou-me ao longo da carreira, incluindo nas minhas promoções até chegar a xerife. Tenho muito a agradecer-lhe”.

Helena Oliveira emigrou em 1979 com a família para os Estados Unidos, fixando-se em Newark, cidade onde cresceu e construiu toda a sua vida. Frequentou a Wilson Avenue School, onde começou por integrar o programa de aprendizagem de inglês para alunos imigrantes. Poucos anos depois, já acompanhava as restantes turmas e prosseguiu os estudos na East Side High School. O seu desempenho académico valeu-lhe a integração no prestigiado programa ASAP (East Side Opportunity Program), reservado aos alunos com melhor aproveitamento escolar da zona de Ironbound.

Mas a vida reservava-lhe um duro golpe. No ano em que terminou o ensino secundário, em 1989, perdeu o pai. A situação obrigou-a a entrar imediatamente no mercado de trabalho para ajudar a família. Foi contratada por um escritório de advogados em Newark, onde acabaria por conhecer Armando Fontoura, então candidato ao cargo de xerife e que mais tarde se tornaria o seu grande mentor.

Em 1996, ingressou no Departamento do Xerife como funcionária administrativa e secretária. Gostava da instituição, acreditava na missão do serviço público e decidiu tentar algo mais ambicioso. Prestou várias vezes provas de acesso à carreira policial através do sistema de função pública até conseguir concretizar o sonho.

Depois de concluir a Academia de Polícia do Essex County College, em dezembro de 2002, iniciou funções como agente do Departamento do Xerife.

Foi agente entre 2002 e 2006, detetive de 2006 a 2011, sargento entre 2011 e 2017 e, desde 2022, desempenhava funções como tenente na Divisão de Assuntos Internos, “onde liderava investigações complexas relacionadas com alegações de má conduta, violações disciplinares e cumprimento dos regulamentos internos, contribuindo para preservar a credibilidade e a transparência da instituição”, explica Helena Oliveira à nossa reportagem.

É ainda titular de um Associate’s Degree em Justiça Criminal pelo Ashworth College.

“Era isto que eu queria fazer”, recorda. “Mais do que qualquer outra coisa, sabia que queria ser agente”.

Antes disso, chegou mesmo a ponderar seguir carreira militar. “Quando estava no ensino secundário, queria entrar para as Forças Armadas, porque sabia que os meus pais não tinham condições para pagar os estudos universitários dos quatro filhos. Mas a minha mãe não deixou. Dizia que o Exército não era lugar para uma mulher”.

Anos mais tarde, tomou a decisão sozinha. “Tive oportunidades para ingressar noutros departamentos policiais, incluindo a Polícia de Newark e outras corporações, mas quis ficar aqui. Era aqui que estava o meu coração”.

Ao longo da carreira, Helena Oliveira descobriu que falar português e espanhol era muito mais do que uma competência linguística: “Abriu-me muitas portas”.

Essa capacidade permitiu-lhe trabalhar em diversas investigações de grande dimensão, colaborar com o Ministério Público e integrar equipas responsáveis pelo combate a redes organizadas de furto de automóveis que envolviam várias agências policiais.

No próprio dia da reforma, recebeu uma chamada que teve um significado muito especial. O antigo xerife Armando Fontoura, a quem continua a chamar mentor, telefonou-lhe para lhe desejar felicidades e dar os parabéns pelo extraordinário percurso profissional.

Um gesto simbólico que fechou um ciclo iniciado há mais de três décadas.

Apesar da reforma, Helena Oliveira garante que não pretende ficar parada. “Continuo jovem e a minha filha também ainda é nova. Agora quero aproveitar o verão com a minha família. Depois, talvez em setembro ou outubro, procurarei um novo desafio. Adoro investigações e espero encontrar algo nessa área”.

Questionada sobre o conselho que deixaria, sobretudo às jovens que ponderam seguir uma carreira nas forças de segurança, Helena Oliveira responde sem hesitar: “O serviço à comunidade tem de estar no coração. Não se pode escolher esta profissão apenas pelo salário ou pela reforma. É preciso querer servir as pessoas. É uma vocação”.

Defende igualmente a importância da formação contínua e do domínio de várias línguas, mas deixa sobretudo uma filosofia de vida que transmitiu a muitos dos jovens agentes cuja contratação acompanhou ao longo dos anos. “Sejam firmes, sejam justos e sejam simpáticos. Tratem sempre as pessoas como gostariam que tratassem a vossa própria família”.

E conclui com duas regras que considera essenciais para qualquer polícia: “Façam sempre a coisa certa, mesmo quando é difícil. E nunca percam a humildade”.

São palavras simples, mas que resumem na perfeição uma carreira construída com trabalho, dedicação e humanidade.

A emoção visível na sua despedida demonstrou aquilo que nenhum currículo consegue transmitir: há pessoas cuja marca permanece muito para além do último dia de trabalho.

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