HILDA AMARAL FOI A 1.ª MULHER PRESIDENTE DE UMA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA EM LONG ISLAND

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Por HENRIQUE MANO \ Jornal LUSO-AMERICANO

Em Agosto de 1997, ao aceitar o cargo de presidente da direcção do Centro Português de Mineola, em Long Island, a imigrante Hilda Amaral virava uma página importante na história do associativismo português no estado de Nova Iorque – ao transformar-se na primeira mulher de que há registo à frente dos destinos de uma colectividade luso-americana na região de Long Island.

Mesmo no contexto do próprio Mineola Portuguese Center, a sua ascensão ao cargo tem carácter histórico: ainda hoje, 83 anos depois da sua fundação, Amaral continua a ser a única mulher que se sentou na cadeira de presidente.

FOTO: Jornal LUSO-AMERICANO
Hilda Amaral está hoje à frente do Comité de Festas do Mineral Portuguese Center

❝NA ALTURA, NEM PENSEI NO CARÁCTER HISTÓRICO DA MINHA NOMEAÇÃO. PRIMEIRO PORQUE NÃO SABIA SE, NOUTRAS ZONAS DO ESTADO, JÁ TERIA HAVIDO OUTRAS MULHERES PRESIDENTE E, DEPOIS, PORQUE A NOSSA PRIORIDADE ERA MESMO QUE O CENTRO NÃO FECHASSE AS PORTAS❞

➫Hilda Amaral

“Na altura, nem pensei no carácter histórico da minha nomeação”, conta Hilda Amaral, na entrevista exclusiva que concedeu ao jornal LUSO-AMERICANO. “Primeiro porque não sabia se, noutras zonas do Estado, já teria havido outras mulheres presidente, e, depois, porque a nossa prioridade era mesmo que o Centro não fechasse as portas.”

Hilda Amaral era vice-presidente em 1997 quando o então presidente, Jack Costa, pediu a demissão a meio do mandato; nomeada presidente, cumpriria o cargo até ao fim.

“Resolvi não ficar outro ano porque na altura trabalhava a tempo inteiro e tinha dois filhos”, explica. “Apesar de ter contado com o apoio de todos os outros membros da direcção, era muito trabalho. Eu fazia tudo e nunca olhei para títulos: se tivesse de puxar uma cadeira ou pôr uma mesa, também o fazia.”

Hilda Amaral nasceu em Maracay, na Venezuela, filha de imigrantes da Murtosa, Distrito de Aveiro. Chega aos Estados Unidos em 1963, radicando-se em Newark, NJ, onde tinha uma avó. Ainda frequentou a Ann Street School, mas a família mudar-se-ia depois para Long Island, numa primeira fase para Albertson e depois para Brentwood, no condado de Suffolk.

A seguir ao liceu, trabalhou dois anos no escritório de um advogado português; entretanto, casa-se com Adelino Amaral, imigrante da zona de Viseu, de quem viria a ter 2 filhos, e muda-se para Mineola.

❝TINHA 8 ANOS QUANDO OS MEUS PAIS ME COMEÇARAM A LEVAR AO CLUBE PORTUGUÊS DE MINEOLA❞

FOTO: Jornal LUSO-AMERICANO
Hilda Amaral em frente ao Centro Português de Mineola, NY

➫Hilda Amaral

“Tinha 8 anos quando os meus pais me começaram a levar ao clube português de Mineola”, relembra. “Queriam que nós tivéssemos contacto com o meio português. O meu pai chegou mesmo a fazer parte de direcções.”

O casal Amaral viu o seu envolvimento associativo aumentar na década de 80 do século passado, com Adelino nas Velhas Guardas e a páginas tantas na mesa da Assembleia Geral como secretário. “Eu comecei a ajudar o Luís Neves a organizar os concursos de Miss”, diz. “Mais tarde, durante uma direcção de Frank Teixeira, passei a secretária.”

A vida associativa também é uma forma de “fazermos amigos novos, alguns que hoje são mesmo como da nossa família”, refere Hilda Amaral. “Por outro lado, vivo com muito fervor o sentir português – apesar de não ter nascido em Portugal. Tinha 12 anos quando lá fui pela primeira vez, mas considero-me muito patriota. É a terra dos meus pais, das nossas raízes.”

❝VIVO COM MUITO FERVOR O SENTIR PORTUGUÊS – APESAR DE NÃO TER NASCIDO EM PORTUGAL❞

➫Hilda Amaral

Hilda Amaral reconhece que as mentalidades mudaram, sobretudo no meio português. “Aquela ideia de que as mulheres são para estar em casa ou a trabalhar numa fábrica, é um pensar antigo”, nota. “Quando comecei a frequentar o clube, as pessoas olhavam com desconfiança para mim; diziam-me que, estando na direcção, ia passar muito tempo no escritório com homens. Isso foi algo que nunca me preocupou nem a mim nem ao meu marido, porque nós estávamos ambos ligados ao clube.”

❝A MINHA MÃE NÃO TINHA NADA QUANDO VEIO PARA A AMÉRICA E TRABALHOU ARDUAMENTE PARA NOS DAR UMA VIDA MELHOR❞

➫Hilda Amaral

FOTO: Jornal LUSO-AMERICANO
Placa com os nomes de alguns dos presidentes mais recentes da colectividade

A nível profissional, garante nunca ter sido discriminada “nem sinto que não tivesse sido promovida por ser mulher.” Amaral esteve 35 anos na JP Morgan, primeiro no departamento de cartões de crédito, e, antes da reforma, em ‘International Banking’, na sede do banco de investimentos em Manhattan.

Hoje à frente da Comissão de Festas do Centro, Hilda Amaral diz que vê na mãe um exemplo de mulher e de ser humano. “Não tinha nada quando veio para a América e trabalhou sempre arduamente para nos dar uma vida melhor”, sublinha.