NEWARK | Guarda Costeira divulga relatório sobre incêndio mortal em navio de carga em Porto de Newark

A Guarda Costeira dos Estados Unidos divulgou recentemente um relatório há muito aguardado, sobre a investigação do incêndio num navio de carga que causou a morte a dois bombeiros em Newark, NJ.

O incêndio deflagrou a bordo do Grande Costa D’Avorio, um navio de carga de bandeira italiana, no Porto de Newark, em Julho de 2023, e manteve-se activo durante vários dias. As vítimas mortais foram os bombeiros Augusto Acabou, de 45 anos, e Wayne Brooks Jr., de 49, que ficaram encurralados no interior da embarcação. Outros cinco bombeiros ficaram feridos. Os danos no navio foram estimados em cerca de 23 milhões de dólares.

De acordo com o proprietário do navio, o Grupo Grimaldi, a embarcação transportava mais de 1.200 veículos novos e usados e 157 contentores, não existindo carga perigosa a bordo. A empresa garantiu ainda que o navio não estava a derramar combustível nem corria risco de afundar.

Segundo documentos apresentados em tribunal federal, o incêndio teve origem num Jeep Wrangler com 16 anos, que estava a ser utilizado para empurrar um Toyota Venza avariado. O Jeep incendiou-se, provocando a ignição de centenas de veículos inutilizados que se encontravam nas proximidades.

A investigação revelou também que o Corpo de Bombeiros de Newark não realizava formação específica em combate a incêndios marítimos há quase dez anos antes do incidente fatal.

Sequência de acontecimentos

No relatório agora divulgado, a Guarda Costeira descreve a cadeia de eventos que levou à morte dos dois bombeiros:

 • Fuga de fluido no Jeep: uma falha mecânica, provavelmente relacionada com o sobreaquecimento da transmissão, levou à libertação de um fluido inflamável.

• Ignição do fluido: o líquido entrou em contacto com superfícies quentes no compartimento do motor, provocando um incêndio que rapidamente se alastrou a veículos próximos e ao convés 11.

• Propagação do fogo: a impossibilidade de fechar uma porta estanque impediu o isolamento completo da zona protegida por dióxido de carbono e funcionou como uma chaminé, favorecendo a propagação das chamas.

• Reativação do incêndio: apesar de o dióxido de carbono ter sido inicialmente eficaz durante cerca de 40 minutos, a sua dissipação, associada à entrada de oxigénio quando os bombeiros abriram portas corta-fogo, levou à reativação das chamas.

• Morte dos bombeiros: apesar da libertação de dióxido de carbono, bombeiros de Newark entraram nos conveses 10 e 11 para investigar e combater o incêndio. Dois deles ficaram desorientados, perderam-se no interior do navio, ficaram sem ar nos aparelhos respiratórios e acabaram por morrer por inalação de monóxido de carbono.

Além das duas mortes, o incêndio causou ferimentos em outros dois bombeiros de Newark, dois bombeiros de Elizabeth e dois elementos de uma equipa universitária de emergência médica. As lesões, consideradas não fatais, incluíram exaustão pelo calor, fadiga e inalação de fumo. Um bombeiro sofreu um traumatismo craniano após cair numa escada, enquanto outro teve queimaduras nos pés devido à falha das botas de protecção.

Transcrições das comunicações rádio durante o incidente revelam momentos dramáticos das tentativas de resgate. “Não conseguimos encontrar a saída… estamos perdidos!”, ouve-se dizer num dos pedidos de ajuda.

Falhas identificadas

O relatório conclui que a falta de planeamento e de formação específica em operações a bordo de navios foi um factor determinante para a perda de vidas humanas. 

Na sequência da investigação, a Guarda Costeira emitiu cinco recomendações de segurança, seis recomendações administrativas, cinco conclusões preocupantes e um alerta de segurança.

As autoridades sublinharam que não foram encontrados indícios de má conduta, negligência ou violação deliberada da lei por parte da Guarda Costeira ou de outras entidades federais, estaduais ou locais, nem elementos que justifiquem a abertura de um processo criminal federal.