NEWARK | Novo empreendimento do Ironbound é aprovado após ação judicial

O Conselho Central de Planeamento de Newark voltou a aprovar, na noite de segunda-feira, o denominado Projecto Ibéria, um novo empreendimento imobiliário com 1.408 habitações que será construído no terreno onde funcionou, durante décadas, o emblemático Restaurante Ibéria, no bairro do Ironbound. O projecto representa o maior investimento de requalificação urbana alguma vez proposto para esta zona tradicionalmente marcada por edifícios de baixa altura.

A decisão surge após uma audiência de reapreciação com duração aproximada de quatro horas, realizada na sequência de uma ação judicial apresentada em Junho pelo grupo de inquilinos Homes for All Newark contra o Conselho de Planeamento da cidade e a entidade promotora, Iberia II Realty Urban Renewal LLC. Os autores da ação alegaram que a aprovação inicial, concedida em Março do ano passado, não cumpriu os procedimentos legais exigidos.

A primeira audiência de reapreciação, realizada em Dezembro, foi dominada por intervenções críticas ao projecto, com moradores e activistas a alertarem para o risco de deslocação de residentes, a aceleração da gentrificação no Ironbound e potenciais impactos ambientais negativos. Já na sessão de segunda-feira, dezenas de apoiantes manifestaram-se a favor do empreendimento, considerando-o um projecto transformador, com impacto positivo na criação de emprego, no reforço da oferta de habitação acessível, na modernização das infraestruturas e no desenvolvimento económico da cidade.

O investimento, estimado em cerca de 803 milhões de dólares, será executado em duas fases e prevê a construção de quatro edifícios – dois com 26 pisos e dois com 30 pisos – localizados entre a Market Street e a Jefferson Street, no local anteriormente ocupado pelo restaurante, uma referência histórica e cultural da comunidade luso-descendente do Ironbound. O conjunto incluirá 1.408 apartamentos, distribuídos por estúdios e habitações de um, dois e três quartos.

Vinte por cento das unidades, num total de 283 habitações, serão destinadas a famílias com rendimentos inferiores ao rendimento médio da região de Newark. O plano contempla ainda espaços comerciais, áreas comuns interiores e exteriores, bem como 620 lugares de estacionamento, dos quais 150 de uso público.

Para responder às preocupações recorrentes com cheias no East Ward, o projecto integra um sistema de gestão de águas pluviais, novas condutas de abastecimento para reforço da pressão da água, sistemas de retenção subterrânea e filtragem das drenagens dos edifícios, medidas apresentadas como melhorias estruturais significativas para a cidade.

Durante a audiência, os promotores apresentaram alterações ao plano inicial, reduzindo a necessidade de excepções urbanísticas relacionadas com volumetria, espaços abertos e recuos. Os edifícios passarão a recuar ao longo das ruas Congress e Jefferson, permitindo alargar passeios, aumentar a arborização e melhorar a ligação pedonal à zona ribeirinha. Foram igualmente eliminadas várias entradas técnicas e de garagem, libertando frente urbana ao longo de todo o quarteirão.

Os opositores reiteraram que, de acordo com o plano director da cidade, não deveria ser permitida maior densidade no East Ward sem a conclusão de um plano de adaptação climática e resiliência. Recordaram ainda que os limites de altura originalmente previstos para estes lotes variavam entre cinco e doze pisos, tendo sido alterados apenas após a aprovação, em 2024, de uma revisão ao Plano de Reabilitação da Frente Ribeirinha, que passou a permitir edifícios até 30 andares.

Representantes de organizações comunitárias e ambientais alertaram para os impactos do projecto num bairro já afectado por poluição, cheias frequentes e efeito de ilha de calor, referindo também a contaminação histórica associada a antigas actividades industriais nas imediações do terreno.

Apesar das críticas, vá-rios empresários e residentes do Ironbound defenderam que o Projecto Ibéria permitirá requalificar um espaço há anos considerado degradado e subaproveitado, trazendo emprego, habitação acessível e melhorias urbanas para a zona.

No final da sessão, os membros do Conselho de Planeamento não prestaram declarações antes da votação. A presidente do órgão, Kalenah Witcher, limitou-se a reconhecer o carácter particularmente controverso do processo, afirmando tratar-se de uma das propostas mais divisivas analisadas pelo conselho.