‘Parecia um homem a gritar’: Kristin deixou Ferreira do Zêzere com prejuízos

Leonardo Francisco diz que já viveu muita coisa. Foi bombeiro, fez formação na proteção civil francesa, habituou-se a lidar com cheias e incêndios. Mas na madrugada em que a tempestade Kristin atravessou Ferreira do Zêzere, sentiu um arrepio que não lhe é habitual.
O vento, conta, soava “como um homem rouco a gritar na rua”, uma voz “forte”, “cheia de raiva”, que o deixou vigilante, enquanto telhas voavam e chapas se soltavam dos postes.
Às 04:30, já estava desperto. O barulho vi-nha de todos os lados. “Parecia o mar a partir”. Em segundos, descreve, percebeu que a casa abanava e que as oliveiras centenárias estavam no chão, com raízes expostas, “tudo estragado”.
No seu meio hectare de terreno, enumera: abacateiros, medronheiros, árvores antigas, “nada ficou de pé”.
Preocupa-o a solidão em que muitas aldeias ficaram mergulhadas. A mãe, de 80 anos, vive numa rua onde, garante, “não passou ninguém desde segunda-feira”, nem bombeiros, nem proteção civil, nem pessoal do município.
“Ela podia ter morrido lá. Ninguém ia saber.” A falta de luz, água e rede telefónica obriga-o a carregar o telemóvel no carro e a gerir a vida “com focos e improviso”.