NEWARK | 1.º Presidente do S.C.P. nunca voltou a Portugal, revela sua filha em entrevista ao jornal “Luso-Americano”

Por HENRIQUE MANO | News Editor | Newark, NJ

Quando o Sport Club Português de Newark, no estado de New Jersey, resolveu homenagear o seu 1.º presidente com a instalação de um busto no hall de entrada da agremiação, a descendente mais directa viva de Eduardo Batista regressou ao Ironbound – onde já há muito não punha os pés. Não foi uma jornada fácil para uma senhora fragilizada pelo tempo e pelas maleitas da falta de saúde. Mas a emoção do regresso a uma comunidade que ainda lhe povoa o imaginário superou tudo…

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Henriqueta Batista com a filha e membros da direcção do S.C.P. na cerimónia em que foi revelado o busto de seu pai, à entrada da sede da agremiação

Henriqueta Madalena Medeiros Batista disse ao jornal LUSO-AMERICANO ter nascido no Hospital St. James, em pleno Ironbound; a mãe, Mary Medeiros, já nascera também nos EUA, em Fall River, para onde os pais emigrariam da ilha açoriana de São Miguel.

“Cresci entre a Walnut Street e a Elm, onde os meus pais tinham casa”, conta, recorrendo por vezes ao apoio da filha, netas de Batista, que a acompanhava, para ir ao baú de recordações… “Depois de ter feito o Liceu East Side, casei-me com um americano de origem alemã.”

Eduardo Batista, 1.º presidente da direcção do Sport Club Português

Sobre as raízes do pai, Renato Batista, sabe pouco; terá nascido num bairro de Lisboa e desaguado, como tantos outros à data, de uma embarcação comercial em costas americanas… Os Batista viveram algumas décadas no Ironbound, até que o pai de Henri queda resolveu transferir a família para uma casa que mandara fazer em Seaside Heights. “O meu pai faleceu em 1957, com cinquenta e poucos anos, e a minha mãe continuou a viver em Seaside Heights até se reformar do serviço público.”

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Henriqueta Batista na sua 1.ª visita ao S.C.P. em vários anos

Henriqueta tem a certeza “de que o meu pai ter-se-ia sentido muito lisonjeado com a homenagem que o Sport Club Português lhe resolveu fazer, ao colocar um busto no hall de entrada. Tinha tanto orgulho em ser português! Aliás, em nossa casa só falávamos português. Para além de que era um trabalhador árduo – passava imenso tempo no Clube, o que aborrecia bastante a minha mãe… Em nossa casa comia-se à portuguesa e ainda hoje sei fazer os pastéis de bacalhau da minha mãe.”

Ao rebuscar a memória, uma vez mais, lá vai dizendo que, com o pai, no barco que os trouxe ao Novo Mundo – “devia ele ter uns 20 anos…” – veio também aquele que iria ser padrinho de Henriqueta, um tal Albert Alves.

O primeiro presidente do hoje histórico Sport Club Português de Newark casou-se aos 34 anos e, segundo a filha Henriqueta, “nunca voltou a Portugal com receio de ser obrigado a cumprir o serviço militar.”

Com o pai no dia do seu noivado

Como era apanágio esses tempos idos, a participação de Henriqueta Batista na vida do Sport Club Português reduzia-se às actividades permitidas ao sexo feminino (as mulheres, aliás, à data da sua fundação, estavam proibidas pelos estatutos de se tornarem sócias…); “eu, por exemplo, queria entrar nos espectáculos do Sport Club Português mas a minha mãe não me deixa e eu ficava muito aborrecida!”

Henriqueta regressa às memórias do pai para dizer: “Lembro-me de ele dizer que vivia numa tal Rua de Santo António dos Capuchos, em Lisboa, para onde mandava de cá cartas para o meu avô. Disso lembro-me bem…”.

Henriqueta Batista, que diz ainda ter um irmão, Eduardo Batista Jr., (“ que não fala português”), diz nunca ter ido a Portugal – “a bem dizer, nunca estive fora dos Estados Unidos.” A filha do histórico do Sport Club Português reconhece que até gostaria de ir – e que a filha teria todo o gosto em acompanhá-la. Quem sabe num futuro próximo…

Eduardo Batista e esposa

Henriqueta Batista vai arranhando o português que aprendeu em casa mas queixa-se “dos acentos, que é o que mais me complica…”.

A viver na Flórida desde finais da década de 80 do século passado, Henriqueta Batista (que perdeu uma filha) termina revelando que os pais só não se casaram no Sport Club Português porque este estava já alugado no dia marcado para o matrimónio. E tiveram que o fazer na sede de outra associação portuguesa no Ironbound.