NOVA IORQUE | Navio-Escola “Sagres” aberto a visitas do público esta sexta-feira (29) e sábado (30) no Pier 17 da baixa de Manhattan

Por HENRIQUE MANO | Nova Iorque

O NRP “Sagres”, o emblemático navio-escola da Marinha Portuguesa e um dos maiores símbolos da presença marítima de Portugal no mundo, atracou na manhã de terça-feira, 27 de Maio, às 8:00 da manhã, no Pier 17, em Manhattan, Nova Iorque, depois de uma travessia atlântica de 28 dias iniciada em Lisboa a 30 de Abril.

À chegada à cidade norte-americana, o comandante do navio, capitão-de-fragata José Eduardo de Sousa Luís, falando em exclusivo ao jornal LUSO-AMERICANO, destacou o simbolismo desta missão e a importância histórica de Nova Iorque para o “Sagres”.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | O Navio-Escola “Sagres” atracado desde quarta-feira no Pier 17 da baixa de Nova Iorque

“Esta é a 11.ª vez que o navio-escola Sagres atraca em Nova Iorque e em Julho será a 12.ª, sendo este o porto americano mais praticado pelo navio, seguindo-se Boston”, afirmou o comandante, que exerce funções desde 27 de Setembro de 2024, ao nosso jornal.

O oficial explicou ainda que o navio abrirá portas ao público, nesta 1.ª escala na “Big Apple”, apenas na sexta-feira, 29 de Maio, e no sábado, 30, entre as 4:00 das tarde e as 10:00 da noite.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | O comandante José Eduardo De Sousa Luís junto ao leme principal da “Sagres”

“Para quem não nos conseguir visitar nesta primeira escala em Nova Iorque, iremos abrir a visitas também quando voltarmos aqui para o 4 de Julho, para a grande cerimónia comemorativa dos 250 anos da Independência dos Estados Unidos”, revelou.

Uma viagem de instrução através do Atlântico

A travessia entre Lisboa e Nova Iorque foi feita “em rota batida”, diretamente entre os dois portos, numa missão que alia a formação naval à representação diplomática de Portugal. “Viemos em rota batida, direto de Lisboa para Nova Iorque”, explicou José Eduardo de Sousa Luís.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Cadetes a bordo da “Sagres” ontem em Manhattan

O comandante sublinhou que a principal missão da “Sagres” continua a ser a formação dos futuros oficiais da Marinha Portuguesa. Um dos seus vetores é “a instrução, isto é um navio-escola, é aqui que os cadetes põem em prática os conhecimentos que adquiriram ao longo do ano letivo, mais ao nível teórico. Neste momento estamos a fazer a viagem de instrução dos cadetes do 2.º ano, que embarcaram em Lisboa e vão estar connosco até Boston. Aí, dia 12 de Junho, fazem a troca com os cadetes do 1.º ano que fazem a viagem de instrução até Lisboa”.

“Embaixador” de Portugal

Conhecido internacionalmente como o “embaixador” de Portugal, o NRP “Sagres” desempenha igualmente um importante papel diplomático e cultural junto das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. “Outros os seus vetores é o apoio à diplomacia, nas suas várias vertentes (política, económica e cultural). O navio-escola Sagres é conhecido como o ‘embaixador’ de Portugal no mundo”, afirmou o comandante.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | A barca leva longe a bandeira de Portugal

Durante a permanência em Nova Iorque, o navio-escola irá acolher um conjunto de iniciativas de apoio à candidatura de Portugal a membro não-permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. “Vamos estar aqui até dia 31 de Maio e fazer um conjunto de eventos de apoio à candidatura de Portugal”.

Entre os momentos de destaque da escala nova-iorquina, encontra-se também um concerto privado da fadista Carminho a bordo, hoje, quinta-feira.

A ligação emocional às comunidades portuguesas

Ao longo da entrevista, José Eduardo de Sousa Luís falou com emoção sobre o contacto permanente entre o “Sagres” e as comunidades portuguesas da diáspora.

“Já tive oportunidade de contactar muito com a comunidade portuguesa literalmente em muitos cantos do mundo e é sempre uma emoção muito grande”, confessou. “Eu já vi pessoas a chorar, quando entram aqui a bordo. Somos sempre muito bem recebidos pela comunidade portuguesa em todo o mundo”.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | O comandante José Eduardo De Sousa Luís no seu gabinete de trabalho a bordo da “Sagres”

Segundo o comandante, o navio acaba frequentemente por se transformar num espaço simbólico de reencontro com Portugal. “A Sagres é um navio de Estado, é sempre território português, onde quer que esteja, e Portugal é um país de emigrantes. Não há porto nenhum em que a Sagres tenha estado em que não haja pelo menos um emigrante português ou um lusodescendente que nos venha visitar”.

O oficial recordou ainda uma passagem marcante por Nova Iorque, em 2018, quando a comunidade portuguesa de Newark organizou uma receção especial à tripulação. “Atracámos no cais do Intrepid, no rio Hudson, mas depois fomos atracar propositadamente a Bayonne, do outro lado, em Cape Liberty, para contactar com a comunidade de Newark. A comunidade organizou-se para nos ir buscar, em diversos carros pessoais, e fomos todos conhecer Newark e a comunidade graças aos portugueses que se organizaram aqui”.

Lusodescendentes procuram as suas raízes

O comandante disse notar um interesse crescente das novas gerações luso-americanas pela herança portuguesa.

“Noto cada vez mais aqui nos Estados Unidos que há lusodescendentes cada vez mais interessados em conhecer as suas raízes. Espero que não seja moda, mas é a sensação que eu tenho”.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Fotografia histórica da “Sagres” atracada a noite no Pier 17, em Nova Iorque, em 1992, vendo-se ao fundo as Torres Gémeas do World Trade Center

Essa realidade, segundo José Eduardo de Sousa Luís, repete-se noutras partes do mundo onde ainda subsistem comunidades ligadas historicamente a Portugal.

O comandante recordou particularmente duas experiências que o marcaram profundamente: Malaca e Goa. “Malaca é uma cidade que deixou de ser uma praça portuguesa em 1640 mas ainda lá tem uma pequena comunidade que se autointitula lusodescendente”, conta. “Falam um português arcaico, têm muito orgulho nas suas raízes portuguesas, usam apelidos portugueses como Carvalho, Fonseca ou Sousa”.

Segundo descreveu, a presença cultural portuguesa permanece viva até nos nomes das ruas e nas tradições populares. “Os bairros onde vivem têm ruas como Albuquerque Street, têm um rancho folclórico que dança o vira e até atuaram a bordo quando o navio lá fundeou”.

Vinho Madeira e sabores açorianos para celebrar a amizade luso-americana

A missão do “Sagres” aos Estados Unidos coincide com as celebrações dos 250 anos da Independência norte-americana, uma ocasião que a tripulação quis assinalar também através da promoção de produtos portugueses.

“Foi com vinho Madeira que os pais fundadores dos Estados Unidos brindaram à Independência no dia 4 de Julho de 1776”, recordou o comandante.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Uma das pipas de vinho Madeira que segue a bordo nesta viagem da “Sagres”

A bordo, seguem pipas de vinho Madeira para recriar o histórico “vinho da roda”, tradição ligada às longas viagens marítimas.

“Lembrámo-nos de contactar o Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira no sentido de embarcarmos aqui pipas de vinho para recriarmos o vinho da roda”.

O navio transporta igualmente produtos açorianos e vinhos portugueses destinados às receções oficiais promovidas a bordo. “Temos Favaios e vinho Moscatel da José Maria da Fonseca para recriar o vinho torna viagem”.

“Também temos aqui diversos produtos açorianos (queijos, compotas, chá Gorreana, biscoitos de orelha da ilha de Santa Maria) para promovermos esses produtos”.

Nas receções oficiais, será criada uma “Mesa Açores”, dedicada à degustação de produtos regionais. “E temos queijos que representam oito das nove ilhas, conseguimos arranjar e diversificados também”.

New Bedford na rota da diáspora

Depois de Nova Iorque e Boston, o “Sagres” seguirá igualmente para New Bedford, Massachusetts, cidade considerada uma das maiores concentrações lusodescendentes da costa leste norte-americana.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Cadetes a bordo da “Sagres” em Nova Iorque preparam a barca para mais uma missão

“Nesta viagem, vamos propositadamente a New Bedford por ter uma comunidade portuguesa muito significativa, é provavelmente a cidade da costa leste com mais lusodescendentes”, concluiu o comandante.

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