ENTREVISTA | Paulo Rangel apela à mobilização política dos luso-americanos e defende maior participação cívica da diáspora

Por HENRIQUE MANO | Nova Iorque

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, apelou à participação política dos portugueses e lusodescendentes residentes nos Estados Unidos, defendendo que o envolvimento eleitoral e cívico da comunidade é fundamental para reforçar a sua influência junto das instituições norte-americanas.

Em entrevista exclusiva ao Luso-Americano, concedida a bordo do navio-escola Sagres, em Nova Iorque, no âmbito da reunião alargada do Conselho Consultivo daquela área consular, o governante sublinhou a importância das eleições intercalares norte-americanas para a afirmação da comunidade portuguesa.

“É muito importante que todos os lusodescendentes e portugueses que podem participar nestas eleições intercalares votem”, afirmou Paulo Rangel. Segundo o ministro, o peso político da comunidade portuguesa nos Estados Unidos está diretamente relacionado com os níveis de participação eleitoral “e depende muito da sua relevância política e, portanto, com a participação e com o voto, obviamente que eles aumentam imenso a sua importância”, destacou.

Para além do exercício do direito de voto, Paulo Rangel considerou essencial que mais portugueses e lusodescendentes assumam papéis ativos na vida política norte-americana, concorrendo a cargos públicos e participando nas estruturas de decisão.

“Um ponto que acho ainda mais importante é que os portugueses participem também como candidatos”, sublinhou.

O chefe da diplomacia portuguesa explicou que a presença de eleitos de origem portuguesa em diferentes níveis da administração pública poderá contribuir para uma maior atenção às necessidades específicas da comunidade. “Só com autarcas, deputados, senadores, procuradores e juízes, onde haja eleições, é que a visibilidade e as aspirações da comunidade portuguesa serão plenamente preenchidas”, referiu.

Rangel defendeu que a integração política deve ocorrer em duas vertentes: a participação ativa, através do voto, e a participação passiva, através da candidatura a cargos eletivos. “É muito importante que a comunidade portuguesa não se alheie da política norte-americana. Sendo parte dessas comunidades locais, da vida dos estados e da própria vida federal, só haverá uma atenção às necessidades específicas da comunidade lusodescendente se houver um importante número de votantes e também um significativo número de candidatos”, acrescentou.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Paulo Rangel falou ao jornal LUSO-AMERICANO a bordo do navio-escola “Sagres”, que esteve atracado em Nova Iorque

Questionado sobre a possibilidade de o voto eletrónico contribuir para reduzir os elevados níveis de abstenção entre os portugueses residentes nos Estados Unidos que participam nas eleições portuguesas, Paulo Rangel admitiu que essa solução poderia aumentar a participação eleitoral. “Porventura eu diria que melhoraria a participação. Sob esse ponto de vista não tenho dúvidas”, declarou.

Contudo, o ministro alertou que a abstenção não resulta apenas de dificuldades logísticas. Recordou que, mesmo em Portugal, onde o acesso ao voto é relativamente simples, a participação eleitoral continua longe dos níveis desejados. “Temos de respeitar a liberdade de votar ou não votar”, observou, acrescentando que nem todos os cidadãos que se abstêm o fazem por falta de meios ou dificuldades de acesso.

Ainda assim, reconheceu que, para muitos emigrantes, a simplificação dos processos eleitorais poderia representar um incentivo adicional à participação.

Apesar das vantagens apontadas ao voto eletrónico, Paulo Rangel destacou que a principal preocupação continua a ser a segurança e a fiabilidade do sistema. “No voto eletrónico, há um problema que nós temos de ter em atenção, que é a segurança desse voto”, afirmou.

O ministro lembrou que o atual contexto internacional, marcado por ciberataques e tentativas de manipulação digital, exige cautela na adoção de novos mecanismos eleitorais.

Paulo Rangel recordou ainda que Portugal possui um histórico sólido de integridade eleitoral, sustentado num modelo tradicional de votação. “Em Portugal não temos relatos de quaisquer casos de fraude eleitoral. Isso resulta de seguirmos um sistema bastante clássico, e até antiquado, que é o voto em urna”, explicou.

Para o governante, a discussão sobre o voto eletrónico continua em aberto e deverá equilibrar duas prioridades: facilitar a participação dos eleitores e garantir a segurança do processo democrático. “Não há dúvida de que aumentaria a participação e, desse ponto de vista, seria uma grande vantagem. Mas temos de ter garantias muito fortes de segurança e de fiabilidade do voto”, concluiu.