NEW JERSEY | Luso-americana neta de emigrante da Murtosa é a Melhor Aluna do Ano do Liceu de Union e vai a caminho de Harvard
• Por HENRIQUE MANO | Union, NJ
Há histórias que transcendem as estatísticas e recordam que o mérito, a perseverança e o trabalho continuam a ser capazes de mudar destinos. A de Jacklyn Rose Cassandra, uma jovem luso-descendente de apenas 18 anos, é uma dessas histórias.
Nascida em Livingston e criada em Union, no estado de New Jersey, Jacklyn prepara-se para iniciar, no final de agosto, uma nova etapa da sua vida académica na prestigiada Universidade de Harvard, considerada uma das mais conceituadas instituições de ensino superior do mundo. Fundada em 1636, Harvard é a universidade mais antiga dos Estados Unidos e integra regularmente o restrito grupo das melhores universidades mundiais, formando líderes políticos, cientistas, investigadores, prémios Nobel e empresários de referência.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | A luso-descendente Jacklyn Cassandra fotografada no Liceu de Union, em New Jersey, onde foi a Melhor Aluna do ano
Para a jovem, esta conquista representa muito mais do que uma admissão universitária. É também uma homenagem às suas raízes familiares.
A sua avó materna, Filomena Pereira Marques, natural da Murtosa, distrito de Aveiro, emigrou para os Estados Unidos em 1971. Primeiro viveu em Lodi e, pouco depois, fixou-se em Newark, onde trabalhou durante anos como empregada doméstica, limpando casas para proporcionar um futuro melhor à família.
Mais de cinco décadas depois, a sua neta prepara-se para entrar numa das universidades mais difíceis do mundo.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Jacklyn Cassandra bebé com a mãe e a avó materna portuguesa
“Quero deixar uma marca”
Filha de Florbela Branco, nascida e criada em Newark, e de pai natural de Brooklyn, Jacklyn cresceu em Union, onde frequentou sempre escolas públicas. Embora em casa predominassem as tradições portuguesas, sobretudo à mesa, confessa que só começou a aprender português há poucos anos.
“Comíamos comida portuguesa todos os dias, mas só aprendi a língua mais tarde”, conta em entrevista exclusiva ao jornal LUSO-AMERICANO.
Visitou Portugal apenas uma vez, há quatro anos, mas nunca esqueceu as suas origens maternas.
Ao longo do percurso escolar construiu um currículo verdadeiramente extraordinário. Terminou o Union High School como “valedictorian”, ou seja, a melhor aluna do ano letivo, ocupando o primeiro lugar entre 599 finalistas. Recebeu ainda os dois New Jersey Seal of Biliteracy, distinguindo a sua proficiência em espanhol e português. Foi tesoureira da National Spanish Honor Society, secretária do Red Cross Club, gestora da equipa técnica das produções teatrais da escola e participou em oito produções ao longo do ensino secundário.
Mas o seu sonho sempre teve um único destino…
“Só queria Harvard”
Inicialmente, apresentou candidatura exclusivamente a Harvard, através do sistema de candidatura antecipada restritiva. “Quando recebi o e-mail de aceitação, foi provavelmente o momento mais feliz da minha vida”.
A candidatura exigiu cinco ensaios pessoais, além da apresentação de todo o percurso académico e das atividades extracurriculares.
Depois da resposta positiva, nunca precisou de candidatar-se a qualquer outra universidade.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Os prémios e conquistas académicas da luso-americana Jacklyn Cassandra
Bolsas de estudo de excelência
O talento de Jacklyn foi igualmente reconhecido por diversas instituições. Recebeu praticamente uma bolsa integral para frequentar Harvard, graças ao apoio financeiro da universidade e a bolsas externas. Entre elas, destaca-se a prestigiada bolsa da Elks National Foundation, no valor de 30 mil dólares. Entre cerca de 28 mil candidatos de todo o país, Jacklyn foi uma das apenas 20 estudantes seleccionadas como “Most Valuable Student”. Os vencedores participaram num programa especial de quatro dias em Chicago, dedicado ao voluntariado e à formação de futuros líderes.
Mais recentemente, conquistou igualmente uma bolsa atribuída pelo Clube Português de Union (PACA).
Ciência para mudar vidas
Em Harvard, irá frequentar o curso de Biologia Integrada, seguindo a via pré-medicina, com intenção de complementar os estudos na área da Neurociência.
O objectivo está bem definido: “Gostaria de seguir Medicina e tornar-me médica investigadora. Quero deixar uma marca duradoura na área médica, seja através de descobertas que mudem o mundo ou ajudando pessoas na minha comunidade”.
Curiosamente, esta vocação nasceu apenas há cerca de três anos. Foi uma professora de Biologia Avançada (AP Biology) quem despertou a sua paixão pela investigação científica. “Foi uma inspiração enorme para mim”.
A paixão por Harvard, essa, começou ainda durante o ensino secundário. Após o segundo ano, frequentou um programa de verão de duas semanas na universidade. No ano seguinte, regressou para um programa de quatro semanas, onde obteve quatro créditos universitários numa disciplina dedicada à Neurodiversidade. Foi aí que percebeu que aquele era o lugar onde queria estudar…
Segundo os registos públicos disponíveis, Jacklyn será apenas a quarta estudante do Union High School a conseguir entrar em Harvard nas últimas décadas e a primeira nos últimos quatro anos.
Trabalho, equilíbrio e persistência
Questionada sobre o segredo para alcançar resultados tão excecionais, responde com simplicidade: “É preciso muito trabalho, determinação e nunca deixar que os outros destruam os nossos sonhos. Também é importante encontrar um equilíbrio entre os estudos e a vida pessoal. Temos de reservar tempo para nós”.
Nos tempos livres, gosta de ler, fazer crochet, sair com amigos e continuar ligada ao teatro, uma paixão que pretende manter em Harvard.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | A luso-descendente Jacklyn Cassandra fotografada e a mãe, Florbela Branco
“A palavra é orgulho”
Ao lado da filha, esteve sempre Florbela Branco, funcionária do Comité Escolar de Newark, que não esconde a emoção ao falar deste percurso. “A palavra que melhor descreve o que sentimos é orgulho. Nunca perdeu o foco. Tem quatro anos de boletins escolares sem uma única nota B. Independentemente das dificuldades que enfrentámos como família, ela nunca desistiu”.
Para Florbela, que nasceu e cresceu em Newark, ver a filha chegar a Harvard representa a concretização de um sonho que atravessa gerações. “Saber que a minha filha terá a oportunidade de fazer a diferença no mundo deixa-me imensamente orgulhosa”.

