“SAGRES NA AMÉRICA” | Oficial imediato Tiago Fernandes serve Portugal no mar: ❝Nunca me arrependi de escolher a Marinha❞
• Por HENRIQUE MANO | Nova Iorque
A viagem do NRP Sagres pela Costa Leste dos Estados Unidos aproxima-se do fim. Depois de escalas marcantes, entre elas Nova Iorque, onde atracou duas vezes, o emblemático navio-escola da Marinha Portuguesa prepara-se para deixar o porto de New Bedford, Massachusetts, no próximo dia 24, concluindo mais uma missão de diplomacia, formação e aproximação às comunidades portuguesas.
A bordo, segue o capitão-tenente Tiago Filipe das Chagas Fernandes, oficial imediato do navio (função equivalente à de segundo-comandante), que conhece bem a vida no veleiro de instrução. Licenciado pela Escola Naval e mestre em Ciências Militares Navais, concluiu a sua formação em 2011, precisamente o ano em que embarcou pela primeira vez na Sagres como oficial de guarnição.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | O oficial imediato Tiago Fernandes junto ao NRP Sagres atracado na baixa de Manhattan, aquando da primeira escala nova-iorquina da viagem
Ao longo da carreira, a Marinha já lhe proporcionou a oportunidade de visitar cerca de vinte países, uma experiência que considera impossível de igualar noutra profissão. Apesar da experiência acumulada, Tiago Fernandes garante que cada missão continua a trazer novos desafios.
“Vinte e oito dias seguidos no mar a bordo de um navio são sempre um desafio”, comenta, em entrevista exclusiva ao jornal LUSO-AMERICANO, referindo-se ao trajeto inicial Lisboa-Nova Iorque. “Muito pouca gente vive esta realidade. Somos uma guarnição de 148 elementos e todos temos de trabalhar como uma verdadeira equipa”.
Durante a travessia do Atlântico, as condições meteorológicas estiveram do lado da tripulação. “Apanhámos bom tempo, conseguimos navegar bastante à vela e esse é sempre o nosso objetivo. Queremos potenciar ao máximo a navegação à vela e mostrar as Cruzes de Cristo ao mundo”,

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | O oficial imediato Tiago Fernandes na sala de oficiais da barca
Segundo explica, é precisamente durante estas manobras que se sente o verdadeiro espírito da Sagres. “Quando toda a guarnição trabalha em conjunto para içar as velas, caçá-las ou voltar a carregá-las no mastro, cria-se uma dinâmica muito própria. Todos remam para o mesmo lado e isso fortalece o espírito de marinheiro”.
Esta não foi a primeira vez que o oficial visitou a cidade de Nova Iorque ao serviço da Sagres. “Nestes seis anos em que estive na Sagres, esta foi a segunda passagem que faço pela cidade”.
A escala voltou a confirmar-lhe o carinho que os portugueses emigrados sentem pelo navio-escola. “Não trazemos apenas um bocadinho de Portugal. Nós trazemos Portugal inteiro. Ao longo destes dias, recebemos muitos portugueses que vivem no estrangeiro e basta ouvirem falar português para se perceber imediatamente a felicidade que sentem”.
Para Tiago Fernandes, subir a bordo da Sagres representa muito mais do que visitar um navio. “As pessoas sentem verdadeiramente que regressaram a Portugal. Aliás, este é território português. São recebidas como se estivessem em casa e isso nota-se na emoção com que nos visitam”.
A vida de um militar da Marinha implica longos períodos afastado de casa, uma realidade que exige sacrifícios pessoais e familiares. “As nossas raízes são sempre em casa”, garante o imediato Tiago Fernandes. “Tentamos aproveitar ao máximo todo o tempo que temos com a família e, talvez por passarmos tanto tempo fora, damos-lhe ainda mais valor”.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | O oficial imediato Tiago Fernandes junto ao leme do navio-escola
Desde que terminou o curso, em 2011, Tiago Fernandes contabiliza cerca de doze anos embarcado. “Eu sei o que é estar longe e a minha família também sabe. Claro que a vida no mar tem momentos de solidão, mas isso faz-nos valorizar ainda mais o regresso. Chegar a casa tem sempre um sabor especial para quem vive esta profissão”.
Questionado sobre que conselho daria aos jovens que ponderam seguir a carreira naval, a resposta surge sem hesitação. “Não tenho qualquer dúvida de que, se voltasse atrás, faria exactamente a mesma escolha. Nunca me arrependi”.
Considera que a Marinha oferece oportunidades únicas de crescimento humano e profissional. “De dois em dois anos mudamos de funções, assumimos novos desafios, conhecemos outras cidades, outros países e outras pessoas. É uma profissão extremamente dinâmica”.
Depois de duas décadas de experiências internacionais, faz uma reflexão simples. “Quando faço as contas aos países que visitei e aos lugares onde estive graças à Marinha, teria de ser uma pessoa muito rica para conseguir fazer tudo isso por iniciativa própria”, nota.
Na sua perspetiva, a instituição oferece muito mais do que uma carreira militar. “A Marinha dá-nos disciplina, conhecimento do mundo, capacidade de adaptação e diferencia-nos em qualquer contexto. Para mim, continua a ser uma casa de oportunidades, quer para quem faz carreira, quer para quem um dia escolha seguir outro caminho no mundo civil”.
Enquanto a Sagres se prepara para abandonar a costa americana, permanece a certeza de que, para milhares de portugueses emigrados, a chegada do navio representa sempre muito mais do que uma visita oficial: é um pedaço de Portugal que atravessa o Atlântico para recordar que a distância nunca apaga as raízes.

