CALIFÓRNIA | Portugal “não tem incentivado” estudo de português no estrangeiro – professor
• Agência LUSA
Há um défice de ensino de português na Califórnia e Portugal tem feito pouco para mudar a situação, disse o professor luso-americano Duarte Silva durante a última edição de 2025 de “As Nossas Vozes”, uma iniciativa do Instituto Português Além-Fronteiras da Universidade Estadual da Califórnia em Fresno.
“Portugal não tem incentivado muito o estudo da língua portuguesa no estrangeiro”, afirmou o professor emérito da Universidade de Stanford e ex-director-executivo do California World Language Project (CWLP), apontando que isto acontece apesar de haver um grande interesse por parte da comunidade. “Mas quando chega para implementar os programas tem sido muito difícil”.
Duarte Silva lamentou que o plano estratégico para o ensino de português na Califórnia, concebido depois de ouvir representantes das comunidades luso-americanas, ainda não tenha atingido todo o potencial.

O luso-americano e professor emérito Duarte Silva, da Califórnia
“Penso que nunca foi bem entendido e nunca foi apoiado por Portugal nem por algumas das agências de Portugal nos Estados Unidos”, indicou.
“Não sei se foi por não perceberem a projecção que este projecto podia ter no desenvolvimento da língua e das culturas portuguesas na Califórnia”, acrescentou.
O professor considerou que, para melhorar a situação, é necessário um esforço concertado entre várias instituições, e que entidades como o Instituto Camões e a FLAD (Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento) não conseguem fazê-lo sozinhas.
“Falta um plano de colaboração estratégico para apoiar a língua e a cultura portuguesa”, afirmou o académico.
Um dos problemas, explicou, é que o ensino de idiomas estrangeiros, tanto na Califórnia como no país, em geral, não tem a força devida e não é comparável ao que acontece noutras regiões.
“Temos uma cultura aqui nos Estados Unidos que não dá valor às línguas estrangeiras, como a Europa toda dá grande valor”, apontou Duarte Silva.
A situação do ensino de português não é, por isso, única; apenas 14% dos estudantes prossegue os estudos de um idioma após o segundo ano. Mas há países, como a China, que têm investido muito na formação e envio de professores para incentivar o estudo do idioma.
Não é o caso do português, que, “comparando com o espanhol, chinês e outras línguas, está muito mais atrasado e vai ser sempre muito difícil”, disse.
O que tem crescido mais são programas de imersão, em que os estudantes aprendem em dois idiomas desde o início da experiência escolar. Há muitos programas destes em línguas como espanhol e japonês e, pelo menos, um de português em Hilmar. No entanto, não é suficiente para fazer avançar o ensino da língua no estado.
Por outro lado, Duarte Silva disse que não tem expectativa de que o português volte a ser considerado uma língua crítica e integrado nos apoios do programa federal Startalk.
“Foi um dos melhores programas para apoiar o estudo das línguas, incluía tanto o ensino dos estudantes como a formação dos professores”, salientou.
O português foi retirado durante a primeira Administração de Donald Trump e o programa está agora reduzido, sendo que não há apoio político para reverter a situação.
“Penso que também não vamos ter novos programas. O Ministério da Educação está a ser reduzido a zero”, apontou o professor, afirmando-se preocupado com o esvaziamento que está a acontecer.
“É muito provável que o Ministério da Educação desapareça nesta administração”, disse, considerando esse passo negativo porque acredita que “educação é muito mais que preparar os estudantes para o mundo do trabalho”.
Os programas “As Nossas Vozes”, da responsabilidade do Instituto Português Além-Fronteiras e do Conselho de Liderança Luso-Americano (PALCUS), mostram diferentes facetas da diáspora e são falados inteiramente em português.

