DESTAQUE | A pintora de duas pátrias, raízes em Cantanhede e laços de família na América
• Por HENRIQUE MANO | Nova Iorque
Há artistas que nascem de um lugar. E há artistas que nascem de dois. A trajectória da pintora luso-francesa Sarah Ferreira é a de quem cresceu entre fronteiras invisíveis, feita de língua, memória e afectos – uma identidade construída no vaivém entre França e Portugal, com raízes firmes na emigração e o olhar sempre aberto ao mundo. Afinal, ela é, acima de tudo, uma cidadã do mundo na Cidade Luz. E desse universo tão lusitano chamado saudade.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | A artista plástica luso-francesa Sarah Ferreira em Times Square
Parisiense de nascimento, filha de emigrantes de Cantanhede, viveu desde cedo o quotidiano de uma casa portuguesa em solo francês. Os pais, que permaneceram cerca de quarenta anos em França antes de regressarem a Portugal, fizeram questão de que a filha crescesse ancorada na cultura de origem.
“Os meus pais quiseram que eu tivesse uma educação tipicamente portuguesa, não apenas no domínio da língua em si, mas da arte e da cultura”, conta a artista plástica, na entrevista exclusiva que concedeu ao jornal LUSO-AMERICANO na sua passagem recente por. Nova Iorque. “Foi algo que eles me incutiram em casa, enquanto que na escola aprendia tudo que era história e cultura francesas. De uma forma muito evidente, essas duas culturas acabaram por construir a pessoa híbrida que hoje sou”.
Foi em Paris que fez os seus estudos, concluindo um mestrado em comunicação, com especialização na área cultural. A formação intelectual deu-lhe ferramentas para pensar o mundo; a necessidade de criar levou-a, paulatinamente, para a fotografia e, de forma autodidacta, para a pintura.
“Acho que tinha prazer em criar, precisava de estar numa prática mais artesanal e manual”, observa, sempre avidamente à procura das palavras. “A componente intelectual ajudou-me a construir a minha forma de pensar, mas tinha essa necessidade”.

Foto: CORTESIA SARAH FERREIRA | A artista vive entre dois mundos e dois ADN’s – Portugal e França, tal como a sua obra retrata
O virar de página na sua carreira aconteceu quase por acaso – aquele tipo de acaso que só surge quando alguém acredita em nós antes de nós próprios. Em 2017, preparava uma exposição de fotografia no Hotel do Chiado, em Lisboa. A curadora reparou nos desenhos que surgiam nas fotografias e lançou o desafio: trocar a mostra fotográfica por uma exposição de pintura.
“Disse-me de imediato para esquecer a exposição de fotografia e concentrar tudo na mostra de pintura, que acabaria por acontecer meses depois”, conta Sarah Ferreira. “E tudo começou assim. Foi outra pessoa que viu em mim algo que nem imaginava…”
Hoje, a emoção é o motor da sua criação. “Valorizo muito emoções e é aí que vou buscar imaginação para criar”, revela. E, com o tempo, Portugal começou a surgir com mais nitidez no seu traço. Se antes procurava um discurso mais universal, agora as raízes lusas emergem quase sem pedir licença.
O seu trabalho está presente no Museu do Pão, em Seia, e no espaço do Museu da Cerveja, no Terreiro do Paço, em Lisboa.
Quando questionada sobre sentir-se mais francesa ou portuguesa, a resposta vem com a honestidade de quem vive entre dois mundos:
“Nunca me senti no meu lugar em sítio nenhum, mas acaba por ser um sentimento muito próximo de uma palavra que só existe em Portugal – a saudade. Sempre tive a sensação de só estar bem entre duas realidades – a francesa e a portuguesa. Acho que esta dicotomia é mesmo universal”.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Sarah Ferreira aproveitou uma deslocação aos EUA para visitar familiares e também (re)visitar alguns dos seus museus favoritos em Manhattan
É em Paris que mantém o seu ateliê, mas a sua vida não se esgota na geografia europeia. Parte da família emigrou para a região nova-iorquina de Long Island, nos Estados Unidos, ligação que mantém viva e afectiva. Essa herança da diáspora acabou por arquitectar não só a sua identidade pessoal, mas também a sua carreira, pensada desde o início como a de uma filha de emigrantes – alguém que cria a partir do entre-lugar.
Foi precisamente nesse espírito de travessia que Sarah Ferreira visitou Nova Iorque para estar com familiares. Em cada regresso, em cada encontro com a família espalhada pelo mundo, reencontra também um pedaço de si.
No plano estético, não se filia em escolas rígidas. Assume influências da arte pop e da arte naïf, “apropriando-me do que me toca para construir um estilo pessoal”.
A obra de Sarah Ferreira é, assim, um território de confluência: entre França e Portugal, entre o intelectual e o manual, entre a memória dos que partiram e o gesto criativo de quem continua a caminhar. E talvez seja nesse espaço intermédio – onde mora a saudade – que a sua pintura encontra a sua verdade mais luminosa.

