DESTAQUE | Sexta obra em livro do jornalista Fernando dos Santos é incursão às “Origens do Ensino do Português nos Estados Unidos”
📄 A edição de autor pretende também perpetuar o esforço esquecido da comunidade luso-americana na defesa da língua de Camões
• Por HENRIQUE MANO | News Editor
Fernando dos Santos acaba de dar à estampa a sua sexta obra, “As Origens do Ensino do Português nos Estados Unidos”, um volume de 397 páginas, em edição de autor, pensado menos como livro de leitura e mais como “obra de consulta” e de memória. Por isso mesmo, o autor pretende oferecê-lo às bibliotecas, para que o seu conteúdo fique acessível às gerações futuras (e actuais).

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | A capa do mais recente livro do jornalista e investigador Fernando dos Santos, que acaba de sair do prelo
Este livro não é apenas um levantamento histórico. É um gesto de gratidão para com uma comunidade que, longe da pátria, nunca desistiu de ensinar a sua língua aos filhos e netos.
Perpetuar o esforço dos que não desistiram
Ao falar da motivação que o levou a escrever esta obra, Fernando dos Santos sublinha – em entrevista exclusiva ao jornal LUSO-AMERICANO – a dimensão quase moral do seu trabalho de investigação: “Qualquer obra é um esforço de perpetuar alguma coisa. Este livro também pretende perpetuar e dar testemunho do esforço que os portugueses da classe média despenderam – nos fins do século XIX, princípios do século XX. Nunca desanimaram com o fim de proporcionar o ensino e a aprendizagem da língua portuguesa quer a adultos quer a crianças. Era um esforço enorme porque, na altura, grande percentagem da população portuguesa era analfabeta e essa população é que emigrava. De modo que, aqui, no Havaí, na Califórnia, aqueles que sabiam escrever despenderam um enorme esforço para que todos aprendessem a ler e a escrever. O livro é também um agradecimento a essas pessoas”.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Fernando dos Santos considera o livro uma ferramenta de consulta
O autor não esconde a sua desilusão com o presente, traçando um contraste duro entre o passado e os dias de hoje: “O que essa classe média portuguesa fez nessas alturas, contrasta enormemente com os dias de hoje em que há gente rica e milionária que não investe tanto no bem-estar cultural da sociedade luso-americana”.
Escolas de herança: ensinar para dignificar

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | A Escola Luís de Camões, do Sport Club Português – que tem um polo em Newark (foto) e outro em Warren

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | A Escola Luís de Camões, do Sport Club Português, tem a sua história entrelaçada à própria colectividade centenária
A criação das chamadas escolas de herança foi, segundo Fernando dos Santos, também uma tentativa de “elevar a imagem da comunidade portuguesa” perante a sociedade americana. Ensinar a língua era, ao mesmo tempo, preservar a identidade e afirmar dignidade.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Alunos da Escola Amadeu Correia, do PISC, desfilam na parada do Dia de Portugal em Elizabeth, NJ: “Nós falamos português”
Nesse percurso histórico, o autor encontrou episódios reveladores:
“A primeira escola que eu encontrei nascida no seio de uma comunidade portuguesa dos Estados Unidos foi em San Leandro, Califórnia, em 1880, e começada por um brasileiro. Tem piada que o português que se ensina hoje nos EUA, a nível académico, não é por causa de Portugal, é por causa do Brasil. Já a nível associativo, não”.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | O professor Paulo Pereira numa aula de português no Liceu de Mineola, em Nova Iorque
Um projecto amadurecido no tempo
O livro não nasceu de um impulso momentâneo. Durante muitos anos, existiu apenas como “rascunho”, acumulando notas, recortes, referências e memórias. Só após a reforma é que o autor decidiu avançar de forma sistemática, construindo o projecto por etapas.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | O Portuguese-American Cultural Center de Palm Coast alberga a única escola comunitária portuguesa no activo no estado da Flórida

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Uma das salas de aulas da Escola Antero de Figueiredo, agregada ao Centro Português de Farmingville, na região nova-iorquina de Long Island
A obra organiza-se em quatro partes: a primeira explica como o português chegou às universidades e aos liceus americanos; a segunda é dedicada ao ensino da língua nas universidades; a terceira centra-se nas primeiras escolas secundárias (liceus) com ensino de português; e a quarta analisa o papel das escolas ligadas às associações luso-americanas. Trata-se, assim, de um mapa detalhado de um percurso colectivo muitas vezes esquecido.
Uma vida dedicada à palavra e à comunidade
Nascido em Vila Nova de Famalicão, Fernando dos Santos construiu a sua vida profissional entre o jornalismo e o serviço à comunidade. Foi chefe de redacção do bissemanário LUSO-AMERICANO durante 33 anos e exerceu as mesmas funções por mais três anos no já extinto Portuguese Post.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Fernando dos Santos na entrevista que concedeu nas instalações do jornal LUSO-AMERICANO em Newatk, NJ – onde foi chefe de redacção durante 30 anos
Iniciou a sua actividade jornalística em Portugal na Agência France-Presse e foi distinguido, em 1997, com o Prémio de Jornalismo das Comunidades Portuguesas (2.º lugar), atribuído pela Secretaria de Estado.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Estátua do poeta Luís Vaz de Camões, na sede do Sport Club Português Newark
Este novo livro surge, assim, como mais um capítulo de uma vida dedicada à palavra escrita e à preservação da memória da emigração portuguesa.

