ESTADOS UNIDOS | A emigrante lisboeta que conduziu quase 500 quilómetros para votar nas eleições presidenciais portuguesas

Por HENRIQUE MANO | Newark, NJ

Num tempo em que a distância física tantas vezes parece afastar os emigrantes da vida cívica do seu país de origem, há gestos que nos recordam que Portugal não se mede em quilómetros, mas em pertença, memória e responsabilidade. O exemplo da luso-americana Lisa Lynn Ericson, residente na Pensilvânia, é disso prova viva.

No sábado, 17 de Janeiro, enfrentou uma viagem de cerca de 500 quilómetros (ida-e-volta) desde Lancaster County, na Pensilvânia, até Newark, em pleno cenário de neve, para poder exercer o seu direito de voto na primeira volta das eleições presidenciais portuguesas. Uma estrada perigosa, um percurso que demorou mais do dobro do tempo previsto pelo GPS, mas nenhuma hesitação quanto ao destino. O objectivo era claro: votar.

A emigrante lisboeta Lisa Lynn Ericson aproveitou a ida a Newark, NJ para votar para matar saudades dos sabores lusos na padaria “Pão da Terra”

Para esta emigrante portuguesa, natural de Lisboa, o acto de votar vai muito além de um simples dever cívico. É, nas suas palavras, “um privilégio muito grande” e um motivo de profunda gratidão, disse Lisa Lynn Ericson em entrevista exclusiva ao jornal LUSO-AMERICANO. Participar na escolha do Presidente da República é, para si, “contribuir activamente para uma decisão que terá impacto no futuro do país que continuo a chamar de meu. Tudo isto é fado”, afirma, evocando a força invisível que liga os portugueses, estejam onde estiverem.

Inspirada pelo conhecido verso de Fernando Pessoa – “tudo vale a pena se a alma não é pequena” -, acredita que a alma portuguesa está bem viva, mesmo fora das fronteiras nacionais. Recusa a ideia de um povo resignado ou derrotista e defende, antes, uma identidade feita de esperança, desde que se encontre “a rota verdadeira e boa”. Como emigrante, “sinto intensamente a saudade da pátria, mas também a responsabilidade de apoiar Portugal da forma que me é possível: participando, escolhendo, votando”.

Não era a primeira vez que exercia este direito. Em Portugal, votou sempre. Já no estrangeiro, precisou de algum tempo para compreender os mecanismos disponíveis para continuar a participar à distância. Recentemente, votou por correio nas últimas eleições legislativas, reforçando a sua ligação activa à democracia portuguesa.

A experiência em Newark não ficou registada em fotografias no Consulado (“por receio de não serem permitidas”, nota), mas teve direito a um momento simbólico bem português: uma paragem numa pastelaria próxima, a Pão da Terra Bakery, para um café e pastéis antes de regressar à estrada. “Numa eleição presidencial, os pastéis de Belém trazem um toque especial”, comentou, com um sorriso que mistura tradição e afecto.

E o compromisso não termina aqui. Agora, garante que regressará para participar também na segunda volta das eleições presidenciais.

Num mundo em que a abstenção cresce e a indiferença ameaça a vida democrática, histórias como esta lembram-nos que o voto é um acto de amor ao país. Um gesto simples, por vezes difícil, mas sempre carregado de significado. Porque Portugal vive onde houver um português disposto a fazer centenas de quilómetros – mesmo sob a neve – para dizer, com o seu voto, que a alma continua grande.