EUA | Conselheiros das Comunidades na América do Norte alertam para baixos salários no ensino do português nos EUA

• Agência LUSA

O Conselho Regional da América do Norte (CRAN) do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP) alertou para o que classifica como uma “situação salarial insustentável” no ensino de português nos Estados Unidos.

Em comunicado, o conselho regional referiu que “estes profissionais estão colocados em cidades como Boston, Nova Iorque, Washington e São Francisco, mas recebem apenas 50 mil dólares anuais no caso do coordenador, 45 mil dólares para um adjunto e 43 mil dólares para um leitor, valores que representam um terço do rendimento necessário para viver com dignidade nos Estados Unidos”.

Em declaração à Lusa, o conselheiro em Toronto e presidente do CRAN, Paulo António Pereira, ressalvou que o tema é “urgente e estrutural” para a continuidade do ensino de português no país.

José Carlos Adão, coordenador adjunto do ensino do português nos Estados Unidos

“O ensino de português é um dos grandes pilares da nossa presença, promoção e manutenção da nossa cultura e da nossa língua”, afirmou, sublinhando que sem a língua, não há comunidade.

O CRAN cita igualmente o estudo SmartAsset 2024, segundo o qual um adulto necessita de cerca de 125 mil dólares anuais para garantir estabilidade financeira em áreas metropolitanas como as referidas.

Segundo Paulo Pereira, a falta de actualização remuneratória é o núcleo do problema.

“O salário dos coordenadores, adjuntos e leitores não é revisto desde 2006, quase 20 anos. Há profissionais que hoje vivem em condições próximas da pobreza”, disse.

A “Luís de Camões”, agregada ao Sport Club Português, é uma das escolas de herança de New Jersey

Para ilustrar a situação, o conselheiro indicou que “em Boston, a renda média de um apartamento de dois quartos ronda os 3.500 dólares, praticamente o valor do salário mensal do coordenador”.

Na mesma linha, considerou insuficiente o aumento inferior a 10% proposto pelo Governo português.

“Um aumento abaixo dos 10% não resolve. É preciso um valor substancial que permita a estes profissionais viver com dignidade”, afirmou.

Apontou ainda discrepâncias internas na proposta remuneratória: “Há uma proposta em que os leitores poderão vir a ganhar mais que o coordenador. O empregado não pode ganhar mais que quem o supervisiona”.

O conselheiro disse ainda que o CRAN já comunicou com diferentes governos para sensibilização sobre o tema.

“Enviámos uma carta ainda ao anterior Governo. Agora voltámos a fazê-lo e falámos pessoalmente com o secretário de Estado das Comunidades, Emílio Sousa, que manifestou interesse em rever o assunto”, disse.

O ensino do português nos EUA é actualmente “o que mais cresce a nível mundial”, ultrapassando os 30 mil alunos entre escolas comunitárias, ensino básico, secundário e universidades, muitos sem ligação familiar ao país de origem.

Como termo comparativo, o CRAN assinala que um coordenador do ensino na Suíça recebe cerca de 7 mil euros brutos mensais, “valor substancialmente superior ao praticado nos EUA”.

No documento, acrescenta-se que uma viagem EUA – Portugal pode custar entre 1.500 e 1.700 dólares em época alta, representando custos elevados para estes profissionais.

Paulo Pereira alertou que há docentes a ponderar abandonar funções e regressar a Portugal.

“Muitos já querem desistir. Se não houver uma actualização, perderemos recursos humanos essenciais”, afirmou, indicando que o Conselho aguarda agora desenvolvimentos por parte do Governo português.