EXCLUSIVO | As origens lusófonas do líder da minoria na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos
• Por HENRIQIUE MANO | News Editor
Nas grandes democracias, há histórias que ultrapassam fronteiras, mares e séculos. Histórias que lembram que a liderança nasce muitas vezes do cruzamento improvável de mundos, do encontro de culturas, do legado silencioso de quem partiu em busca de futuro. A ascensão de Hakeem Jeffries – congressista pelo 8.º distrito de Nova Iorque e actual Líder Democrata na Câmara dos Representantes dos EUA – é uma dessas histórias. Inspiradora, improvável, profundamente lusófona.

O congressista Hakeem Jeffries (D-NY) e líder da Minoria na Câmara dos Representantes
Poucos americanos se aperceberão de que o mais alto responsável do governo dos Estados Unidos com ascendência cabo-verdiana tem raízes fincadas nas pedras negras da ilha do Fogo, o vulcão que molda o espírito resiliente de Cabo Verde. A ilha foi uma das primeiras a ser povoada na antiga colónia portuguesa e, desde cedo, enviou filhos e netos para o mundo, abrindo rotas entre África, a América e a Europa. Foi dessa tradição de coragem que surgiu uma parte essencial da linhagem de Jeffries.

A campa em Cabo Verde onde está sepultado o bisavó de Jeffries, Manuel Gomes
Ele próprio nunca escondeu esse orgulho. Nas suas palavras, partilhadas com o mundo, deixa-o bem patente: “Great to be back on African soil in the Republic of Cabo Verde, the home of my maternal grandfather” (“É óptimo estar de volta a solo africano na República de Cabo Verde, terra do meu avô materno”);“Who knew the great-grandson of a Cape Verdean immigrant from Fogo would one day return as a member of Congress to attend the inauguration of his excellency, President José Maria Neves. Thank you Secretary Marty Walsh for leading a Biden administration delegation to represent the United States. Great dinner meeting hosted by the Ambassador with some of Cabo Verde’s top governmental officials” (“Quem diria que o bisneto de um emigrante cabo-verdiano do Fogo regressaria um dia como membro do Congresso para assistir à tomada de posse de Sua Excelência, o Presidente José Maria Neves. Obrigado ao Secretário Marty Walsh por liderar a delegação da administração Biden em representação dos Estados Unidos. Excelente jantar oferecido pelo Embaixador com alguns dos mais altos responsáveis governamentais de Cabo Verde”) ou “The Republic of Cabo Verde is the home of my maternal Grandfather, whose father came from Fogo…” (“A República de Cabo Verde é a terra do meu avô materno, cujo pai veio do Fogo e emigrou para uma pequena comunidade cabo-verdiana em Waterbury, Connecticut”).

O congressista recebeu a semana passada uma representantes da Selecção Nacional de Cabo Verde no Capitólio, de quem recebeu uma camisola com. apelido português do bisavô (Gomes)
A história familiar é, por si só, um pequeno épico da diáspora lusófona. O avô materno de Jeffries, Walter Pina Gomes, filho de Manuel Gomes e Rose Pina, nasceu em Cleveland e serviu longamente nas Forças Armadas dos EUA entre 1942 e 1963. A disciplina, o patriotismo e o sentido de dever que marcaram a sua carreira ecoaram depois na dedicação cívica da sua filha – mãe de Hakeem – que viria a liderar organizações juvenis da American Legion Auxiliary.

A tomada de posse como congressista, com a presença da mãe, de quem lhe provém a costela lusófona
Mas antes de Walter, veio Manuel. Manuel Gomes, natural do Fogo, chegou aos Estados Unidos em 1915, seguindo o caminho de mais de 4.000 milhas que tantos cabo-verdianos trilharam rumo a New Bedford, Massachusetts (avançando mais tarde para Waterbury, CT). Num curto espaço de anos, apaixonou-se, casou, teve um filho, perdeu a esposa e lutou pela cidadania americana. Trabalhou nos moinhos de latão, na ferrovia, sustentou a família, voltou à terra natal mais tarde na vida e morreu na freguesia de São Filipe (ilha do Fogo) em 1974 – irónica e poeticamente, poucos meses antes de Cabo Verde conquistar a sua independência de Portugal.

O líder democrata recebeu o Presidente de Cabo Verde, José Maria das Neves, no Capitólio
É impossível não imaginar Manuel, na quietude dos seus últimos dias, a olhar para o mar que tantos partiram. Poderia ele adivinhar que o seu bisneto se tornaria uma das figuras políticas mais influentes dos Estados Unidos? Que o apelido Gomes, ao lado de Graça, Pereira e Pina, ecoaria um dia nos corredores do Capitólio?
Jeffries nasceu em Brooklyn, cresceu entre os ritmos urbanos de Nova Iorque e as memórias longínquas do Fogo. A sua identidade americana mistura-se com heranças vindas de Connecticut, Massachusetts, New Jersey, Ohio e, claro, de um arquipélago atlântico que enviou filhos para todos os continentes.
A história de Hakeem Jeffries lembra-nos que a lusofonia viaja. Reinventa-se. Regressa. E que, às vezes, o caminho para o topo da política americana começa numa pequena comunidade emigrante, numa travessia atlântica, no pulsar quente do vulcão do Fogo.
É um lembrete poderoso de que as ilhas formam líderes – mesmo quando as ondas os levam para longe.

