GASTRONOMIA | Na pastelaria “Pão da Terra”, de Newark, Portugal está à mesa (e no coração)

Por HENRIQUE MANO | Newark, NJ

No coração do Ironbound, em Newark, há um lugar onde o tempo parece abrandar e a memória ganha forma, cor e sabor. Quando se fala em tradição portuguesa autêntica, o nome surge quase inevitavelmente: “Pão da Terra”. Mais do que uma pastelaria e padaria, é um ponto de encontro entre gerações, culturas e histórias de vida marcadas pela coragem de emigrar.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Fachada da pastelaria e padaria Pão da Terra, na Ferry Street de Newark

➥Onde o Ironbound sabe a Portugal

Hoje, quando se fala no Ironbound e se quer experimentar o que é verdadeiramente português (genuíno, tradicional, sem concessões) o nome surge quase de forma natural… É ali, em plena Ferry Street, esquina com a Monroe Street. O “Pão da Terra” não é apenas um espaço comercial. É um ponto de referência, um lugar de identidade, onde a portugalidade se sente no aroma do pão quente e no ritmo constante do trabalho feito com respeito pelas origens.

➥Da Ericeira para a América

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Os proprietários Gonçalo e Raquel Nascimento

Gonçalo Nascimento tem 47 anos e é natural da Ericeira, no concelho de Mafra. Antes de emigrar, trabalhou sete anos na pastelaria em Portugal. “A formação que tive foi a da vida, nunca fui à escola. Tudo o que aprendi foi com pessoas de mais idade, com mais sabedoria, e fui recolhendo um bocadinho de cada um até chegar àquilo que sou hoje”, explica o chefe de pastelaria, co-proprietário do “Pão da Terra”, em entrevista exclusiva ao jornal LUSO-AMERICANO.

Esse saber construído na prática, na observação e na partilha, tornou-se a base de tudo o que hoje se faz no “Pão da Terra”. Um saber transmitido de geração em geração, agora recriado do outro lado do Atlântico.

➥Um sonho chamado tradição

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Delícias de Natal no Pão da Terra

Já nos Estados Unidos, Gonçalo sentiu que algo faltava. Faltava o sabor verdadeiro da pastelaria portuguesa, feita como antigamente. “Quisemos abrir o Pão da Terra para mostrar o que há de mais tradicional na nossa pastelaria, porque acho que faltava aqui”, diz.

Desde o primeiro dia, a regra foi clara: tudo de fabrico próprio. Sem produtos industriais, sem atalhos.

O projecto ganhou vida em 2011, em sociedade com a mulher, Raquel Nascimento, natural de Torres Vedras. Juntos, transformaram uma ideia sólida num espaço amplo, com capacidade para 74 pessoas, onde o trabalho nunca pára – mesmo quando a cidade dorme.

➥As noites longas e o forno aceso

A rotina de Gonçalo não segue horários convencionais. O seu dia começa quando muitos terminam. “Nós só temos horário de entrada, às 9:00 da noite para mim. Trabalho pela madrugada dentro; até dia 24, acho que só durmo cerca de 4 horas”.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Variedades de bolos-rei

Especialmente na quadra natalícia, o esforço é maior. Até ao Dia de Reis, 6 de Janeiro de 2026, o “Pão da Terra” mantém viva uma tradição que os clientes procuram com emoção.

“Nesta quadra, o que as pessoas procuram mais é o Bolo-Rei, o Bolo-Rainha, os fritos como rabanadas, cuscorões…”, conta.

Mais do que produtos, são símbolos. Sabores que ligam quem está longe àquilo que nunca deixou verdadeiramente para trás.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Os proprietários Gonçalo e Raquel Nascimento

➥“Ou é agora ou nunca”…

Raquel Nascimento recorda bem o momento decisivo. O projecto já existia na imaginação, mas faltava o lugar certo. “Era o projecto que o meu marido idealizava, trazer o pão de chouriço e o pão de Mafra para Newark. E quando esta localização apareceu, pensámos: ou é agora ou nunca. E avançámos com este projecto”, acrescenta a mulher e sócia, Raquel Nascimento.

Hoje, a variedade é um dos grandes trunfos da casa: pão d’água, pão de Mafra, pão com chouriço (os mais vendidos), papo-seco, pão de passas com nozes, ciabatta, pão de 78 cereais… “Uma das coisas que o cliente quer é variedade e qualidade e eu acho que nós oferecemos isso”, sublinha Raquel Nascimento.

E se não há ainda mais opções, não é por falta de vontade. “Só não fazemos mais porque não temos espaço e capacidade de produção”.

➥Ponto de encontro da comunidade

Ao longo dos anos, surgiram oportunidades de crescimento, em Newark e noutros pontos do estado, mas o projecto mantém-se fiel à sua essência. Crescer, sim – mas sem perder a identidade.

O Pão da Terra tornou-se também paragem obrigatória para figuras públicas portuguesas que passam pelo Ironbound, de apresentadores a artistas, de chefs a atletas e políticos. Ainda assim, o foco nunca se desviou: servir a comunidade.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Uma mesa (de Natal) portuguesa, com certeza

➥Somos todos mais fortes

No final, Gonçalo deixa uma mensagem que resume o espírito do Pão da Terra e do próprio Ironbound.

“Um agradecimento geral a todas as comunidades, porque são todas fundamentais para que o bairro funcione, porque não somos só nós, somos todos (e todos somos mais fortes) e para todos um bom e feliz Natal e ano novo”.

Entre noites sem dormir, fornos acesos e receitas guardadas na memória, o “Pão da Terra” continua a provar que a tradição não é passado. É presente. É partilha. É futuro. ■