9/11: 24 ANOS | Sargento Manny Vilar vai ao “Ground Zero” pela primeira vez para homenagear vítimas luso-americanas dos atentados
• Por HENRIQUE MANO | East Hampton, NY
[ Por ocasião dos 24 anos dos atentados de 11 de Setembro, a história de um luso-americano que serviu no “Ground Zero” ganha novo fôlego e emoção. ]
Nascido em Newark, New Jersey, Manuel “Manny” Vilar, hoje com 64 anos, é um nome cuja história espelha o espírito de sacrifício, resiliência e orgulho que une duas nações – os Estados Unidos e Portugal. Filho de emigrantes da Murtosa, município costeiro em Aveiro, Manny cresceu entre as praias de Long Island e as tradições lusas herdadas da família. Hoje, é reconhecido como um dos luso-americanos que respondeu ao apelo do dever nos dias mais sombrios da América: o 11 de Setembro de 2001.

O sargento Manny Vilar (esq.) recebeu do então Governador George Pataki, do estado de Nova Iorque, uma bandeira americana pelos serviços prestados durante as operações de resgate e recuperação da zona do “Ground Zero”, na baixa de Manhattan
Do Mar à Missão
O percurso profissional de Manny Vilar começou cedo. Após concluir o ensino secundário no Mineola High School, formou-se em Arquitectura no New York Institute of Technology, mas o seu destino viria a seguir outro rumo: em 1984, ingressou na New York State Park Police, onde viria a fazer uma carreira sólida, marcada por várias promoções até à reforma, em 2022, como sargento sénior.
Homem do mar, conhecedor profundo da náutica, Manny viria a ter um papel vital nas semanas após os ataques ao World Trade Center. Na noite do dia 11 de Setembro, foi destacado para guardar a sede da Organização das Nações Unidas, no lado de Queens, “numa altura em que se temia uma nova vaga de ataques terroristas” – conta o sargento reformado ao jornal ao LUSO-AMERICANO.

O luso-descendente Manny Vilar, que nasceu em Newark, NJ, com raízes na Murtosa, faz uma longa carreira junto da New York State Paek Police
Mas a urgência da situação rapidamente o levou para novas funções: “as autoridades tinham embarcações, mas não quem as soubesse operar. Eu era perito em operações marítimas, tendo até leccionado na escola de formação policial marítima. Fui assim destacado para uma das lanchas da polícia, com base na Cove Marina, junto ao Ground Zero”, conta.
Durante seis semanas, transportou elementos das equipas de resgate, bombeiros e pessoal de apoio entre Queens, Bronx e New Jersey – sempre com o olhar fixo nas cinzas de uma cidade ferida.
Durante alguns dias, esteve ainda colocado junto a uma morgue temporária instalada perto do edifício da American Express. Uma experiência que, embora nunca o tenha vencido fisicamente, deixou marcas emocionais profundas. “Nunca mais voltei àquela zona. Nunca consegui visitar o memorial. Mas este ano, 24 anos depois, vou voltar. Pelo reconhecimento às vítimas portuguesas,” confessa.
Um orgulho de raízes profundas

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Manny Vilar faz questão de ter a bandeira de Portugal ao lado da americana num mastro à entrada de sua casa em East Hampton, NY
A história de Manny é também uma história de herança. O seu pai, nascido em 1923 na Murtosa, emigrou para os EUA após a Segunda Guerra Mundial. O avô já lá estava desde os anos 1920, depois de combater na Primeira Guerra Mundial por Portugal. A mãe, de ascendência alemã, nasceu em solo americano. Com um pai nostálgico das paisagens da Torreira, a família encontrou nos campos e nas dunas de East Hampton um reflexo do que tinham deixado para trás em Portugal.

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Com o pai, Manuel Vilar, de 101 anos, e um dos filhos em East Hampton, NY
“East Hampton era, na altura, um lugar de pescadores e agricultores, muito parecido com a Murtosa,” recorda. A família ainda mantém uma casa em Portugal, para onde os pais regressaram após a reforma. As férias de verão eram, durante décadas, passadas em solo português.
Manny obteve a dupla nacionalidade nos anos 90. O pai, com 101 anos, que, após a viuvez, regressou a East Hampton, ainda hoje lê o jornal LUSO-AMERICANO, que recebe em casa.
Entre a polícia, a política e a memória

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Manny Vilar foi igualmente líder sindical e ocupa agora as funções de Presidente do Comité Republicano de East Hampton, NY
Para além da sua carreira policial, Manny Vilar destacou-se também como líder sindical – fundou uma associação independente que se tornou a quinta maior do Estado de Nova Iorque, a Police Benevolent Association of New York State, da qual foi presidente durante uma década.
Depois da reforma, fundou a Accabonac Strategies, empresa de representação política com clientes no governo local e estadual. Em paralelo, assumiu a presidência do Partido Republicano de East Hampton em 2019, sendo um defensor convicto dos valores conservadores que, diz, “aprendeu em casa: trabalho árduo, mérito, e responsabilidade individual”.
Foi também delegado à Convenção Republicana de 2024, onde esteve a poucos metros de Donald Trump e J.D. Vance. “Foi um momento muito emocionante. Um ponto alto da minha vida política”.
Pelé, a praia e a saudade
Entre as muitas curiosidades da sua vida, destaca-se a amizade entre o seu pai e Pelé, o lendário futebolista brasileiro, que tinha uma casa ao virar da esquina em East Hampton. “Iam juntos à praia, pescavam e falavam sobre futebol e o tempo. Era muito bonito.”

Foto: JORNAL LUSO-AMERICANO | Manny Vilar foi igualmente líder sindical e ocupa agora as funções de Presidente do Comité Republicano de East Hampton, NY
A última vez que Manny esteve em Portugal foi em 2019, quando a sua mãe faleceu subitamente durante umas férias no país. Desde então, a ausência prolongou-se. Mas agora, com a homenagem aos portugueses vítimas do 11 de Setembro marcada para este ano, e em que vai participar, sente que chegou o momento de regressar – ao Ground Zero, sim, mas também à memória, à herança, e às raízes.

