COM AJUDA DE ‘VICE-PRINCIPAL’ LUSO-AMERICANA, MAIOR LICEU DE CONNECTICUT COLOCOU MAIS DE 3 MIL ALUNOS EM ENSINO À DISTÂNCIA

275

Por HENRIQUE MANO | Jornal LUSO-AMERICANO

Está desde 13 de Março a trabalhar de casa a ‘vice principal’ de origem portuguesa do Liceu de Danbury, que, com mais de três mil alunos, é a maior instituição do género no estado de Connecticut, com aproveitamento escolar superior a 80%. Domitila Corte-Real Pereira, filha de imigrantes da Guarda, assumiu o cargo há 9 anos e encara uma tarefa mastodôntica pela frente…

“Temos estado a coordenar esforços para transferir das salas de aulas físicas para o online todo o sistema curricular tradicional de aulas que estava montado”, explica a gestora e também ex-professora, em entrevista ao jornal LUSO-AMERUCANO. “Para além de termos de nos certificar de que os nossos alunos estão a ter o acesso necessário à aprendizagem, é igualmente importante controlar o seu estado social e de saúde mental.”

❝TEMOS ESTADO A COORDENAR ESFORÇOS PARA TRANSFERIR DAS SALAS DE AULAS FÍSICAS PARA O ONLINE TODO O SISTEMA CURRICULAR TRADICIONAL DE AULAS QUE ESTAVA MONTADO❞

➔Domitila Corte-Real Pereira

‘Vice principal’, Danbury High School

Tudo começou “por contactarmos pessoalmente os mais de 3200 alunos que temos para saber de estavam bem, se precisavam de um computador e se tinham alimentação e segurança em casa. Afinal, não há condições de aprendizagem para um estudante com fome ou num clima de insegurança.”

O Liceu de Danbury, onde 5% dos estudantes são de origem lusa e o quadro docente com 240 educadores inclui 7 portugueses, continua encerrado e em processo de higienização profundo.

Depois de identificadas as necessidades tecnológicas dos alunos, o processo seguinte foi a distribuição em larga escala de Google Chrome Books “a todos os que deles necessitavam. Só essa parte do processo, em Danbury, prolongou-se ao longo de seis dias; entregámos mais de 800 Chrome Books – sempre a respeitar as regras de higiene e distanciamento estabelecidas pelo Centro de Controlo de Doenças (CDC).”

❝ENTREGÁMOS MAIS DE 800 CHROME BOOKS, SEMPRE A RESPEITAR AS REGRAS DE HIGIENE E DISTANCIAMENTO ESTABELECIDAS PELO CDC❞

➔Domitila Corte-Real Pereira

‘Vice principal’, Danbury High School

Fazer chegar equipamento a quem precisa continua a ocupar os dias da ‘vice principal’. “Esta semana passei dois dias a fazê-lo e amanhã voltarei à rua para o mesmo”, diz. “A este desafio acrescenta-se ainda o facto de muitos alunos não terem em casa acesso à internet; alguns disseram-me mesmo que, para as teleaulas, tinham de ir para a rua à procura de uma área com rede.”

O distrito escolar está a estudar formas de minimizar esta questão trabalhando em estreita colaboração com as companhias de cabo locais, garante a gestora.

Há, por outro lado, outros factores sociais de peso: estudantes a trabalhar horas a mais para melhor contribuírem para o orçamento familiar em tempos de grande necessidade, “alguns com os pais desempregados ou doentes. Temos mesmo estudantes que, neste momento, estão entregues a si mesmos, sem nenhum rendimento porque perderam o trabalho e enfrentam sérias dificuldades. Tudo isto tem de se ter em consideração no contexto global do ensino à distância.”

❝AS CONDIÇÕES SOCIAIS DOS ALUNOS TÊM DE SE TER EM CONSIDERAÇÃO NO CONTEXTO GLOBAL DO ENSINO À DISTÂNCIA❞

➔Domitila Corte-Real Pereira

‘Vice principal’, Danbury High School

Para Domitila Corte-Real Pereira, “estamos todos a processar por fases esta nova maneira de fazer as coisas.”

No que a refeições diz respeito, foi necessário coordenar com bancos alimentares e outras estruturas locais como fazer chegá-las aos 58% de alunos que no Distrito Escolar de Danbury dependem de ajuda nesse sentido. “São na ordem dos milhares as crianças que têm acesso a pequeno-almoço e almoço nas escolas”, acrescenta.

O Distrito Escolar de Danbury está a facultar, através de centros de distribuição, 5 mil refeições por semana a alunos até aos 18 anos – com o apoio de parcerias locais. “É um esforço de todos”, sublinha.

Para Corte-Real Pereira, “o aspecto mais desafiador de tudo isto, como ‘vice principal’, é não poder estar presencialmente com os alunos e colegas e com eles arranjar soluções. Por outro lado, todas as incertezas que a COVID-19 nos traz, como nova doença que é, também nos impossibilita de melhor prepararmos o que pode estar para vir.”

❝PACIÊNCIA E COMPREENSÃO É O QUE SE PEDE AOS ENCARREGADOS DE EDUCAÇÃO. ISTO É NOVO PARA TODOS❞

➔Domitila Corte-Real Pereira

‘Vice principal’, Danbury High School

Aos pais e encarregados de educação que agora passam os dias em casa com os filhos, pede sobretudo “paciência tanto com os filhos como com os professores. Isto é novo para todos nós. Estamos todos a aprender e em conjunto. Lembrem-se que os professores dos vossos filhos estão a trabalhar arduamente para que estas tele-aulas sejam possíveis. Portanto, paciência e compreensão é o que se pede. Esta é a nova normalidade; nas escolas, não estamos à procura da perfeição, apenas de esforço e boa vontade.”

O cenário da gestora na sua própria casa reflecte o dilema actual de muitas famílias. “Tenho dois filhos que também estão em tela-aulas enquanto eu faço o meu trabalho online. Procuro manter um estado de espírito positivo, embora tenha de admitir que nem sempre é fácil, com tudo o que se passa em nosso redor pelo mundo. Apesar da pandemia, o meu filho vai graduar do liceu e seguirá para a universidade e a minha filha passará para o segundo ano do high school e assim a vida continua para todos nós. Estas experiências vão dar mais bagagem aos meus filhos nas suas carreiras académicas.”

Domitila Corte-Real Pereira termina dizendo ser difícil imaginar como vão ser as escolas quando a retoma chegar. “É aquela pergunta que vale um milhão de dólares”, nota. “Contudo, estou em crer que o ensino à distância veio para ficar.”

Danbury, cuja diversidade cultural se reflecte nas suas salas de aulas (onde se falam 43 idiomas), gasta 10 954 dólares por aluno e conta com orçamento a rondar os $150 milhões.

DOMITILA CORTE-REAL PEREIRA

👤Perfil

➝Nasceu em Danbury, CT, filha de portugueses do Distrito da Guarda. O pai, Eduardo Corte-Real, emigrou por volta de 1968, oriundo de Aguiar da Beira; a mãe, Maria Augusta, viria três anos depois, de Fornos de Algodres.

➝Depois de ter feito os estudos primários e secundários em escolas católicas na cidade, a seguir ao liceu decidiu ir estudar para Portugal. Fez meio ano na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, a tirar Francês e Inglês. “Adorava estar em Coimbra, mas a minha mãe não aguentou a separação e acabei por voltar”.

➝Nos EUA, obtém o Mestrado na área de ciências na Western Connecticut State University, mas descobre que a investigação na área médica e biológica não lhe preenchia a alma e forma-se também na área do ensino.

➝A primeira oportunidade de emprego surge em 1998, para dar aulas de Ciências no Liceu de Danbury, no sistema bilingue. O desafio leva-a de novo aos corredores universitários e, enquanto dá aulas, obtém outro Mestrado na Fairfield University, na área do ensino multicultural, com ênfase no inglês como segunda língua. 

➝Dá-se novo regresso à universidade, desta feita para um curso na University of New England, em 2010, que a capacitou para assumir qualquer cargo de chefia num liceu em Connecticut.

➝Está casada com o advogado luso-americano Larry Pereira, de quem tem dois filhos adolescentes, de 18 e 14 anos.